http://rosanefernandes.blogspot.com
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caetano fernandes lira costa. umas das últimas palavras que li sobre ele diziam: "não deixou filhos, não deixou bens, não deixou herdeiros, não deixou testamento". não é verdade. filhos? deixou-nos todos: tio david, tia edna, mamãe, tio levi, tio jonas, andréa, carla, cristiane, letícia, joão filipe, isabel e eu. a cada um dos irmãos, cada um dos sobrinhos, ele, que tinha sempre cimento pelo corpo todo e doces nos bolsos, deixou mais um pouquinho órfão. porque o caetano sempre foi nosso paizão, sempre foi louco por todos nós. sempre conheceu cada um de um jeito todo particular, e sempre fez de tudo para que nada nos faltasse. fosse comida à mesa, fosse alegria no fim de noite. ele, que sempre foi um filho apaixonado pela mãe, pegando não sei quantas vezes para ele a mesma xícara de café (essa xícara eu não gosto, meu filho; ai, mas está assim tão sem açúcar; ai, meu filho, agora esfriou...). ele, que foi sempre um rapaz temente a deus (não fique dizendo que deus não existe, rósââni, quem mais ia fazer tudo assim tão perfeito?). ele, que foi sempre nosso advogado quando nossos pais queriam nos castigar, quando alguém mexia conosco na rua, quando não queríamos ir para a escola. ele, que foi sempre um irmão verdadeiramente irmão para os seus irmãos; irmão para qualquer hora. ele, que foi péssimo pedreiro. ele, que sempre foi cantor de chuveiro. ele, que sempre foi tão zombeteiro e mesmo assim nunca brigou com ninguém. não posso recordar jamais de algum sobrinho respondendo mal ao caetano. não posso me lembrar jamais de tê-lo visto triste ou pessimista, nem mesmo quando a mãe adorada faleceu. caetano sempre foi a força de todo mundo. e fazia uma salsicha frita maravilhosa. e cantava músicas de que ninguém no rio havia ouvido falar. e contava causos do norte e nós ouvíamos bestas, bestas... bens? Eu jamais esquecerei a voz dele, a risada franca, as histórias engraçadas, de terror, as zombarias (existia uma menina em santa amélia que só comia arroz do chão... esse pintinho não vai ser seu, não vai ser seu...). herdeiros? como não? nós, que aprendemos com ele o bom-humor, a leveza, e a jogar damas com seriedade de profissional. nós, que aprendemos com ele a empreender, a nos virarmos sozinhos, a acreditar que podíamos qualquer coisa, mas que era tão bom viver até mesmo de vender cocadas (mas comíamos quase tudo). testamento? cada um já sabe o que dele lhe pertence: a quem as memórias do irmão que vendia balas, a quem a memória do tio que trazia doces, a quem a memória do filho que fazia todas as vontades, a quem a memória do maluco que gastava todo o pagamento em um único dia, mas apenas queria esse dia feliz... eu sei que ele foi feliz porque nunca o vi bravo, porque ele soube gastar o tempo e o dinheiro que teve, porque para ele o que mais importava éramos nós, porque ele comeu toda a carne vermelha que quis, porque ele superou todas as dificuldades que teve, porque ele namorou muito, amou muito e foi muito amado. quem não o conheceu, nem pode ter noção da jóia que deixou de admirar. eu, que não serei jamais parecida com a preciosidade do que ele foi, deixo aqui algumas fotos. e a minha tristeza e alegria mais profundas. 03/03/07
A música que ele cantava e fazia eu me acabar de tanto rir:
Mas ele gosta dela e não maltrata ela...
Não disfaz dela e trata muito bem...
Foi lá na capela e se casou com ela
E não repara nela os defeitos que tem..
O que mata ela é uma perna torta
E a outra morta de uma congestão
Tem um braço seco que furou num prego,
Tem um olho cego e só tem uma mão...
Só tem uma orelha mas não é defeito..
Já perdeu um peito numa operação..
Veio um vento forte e entortou-lhe a boca
Ela é fanhosa e rouca mas é um peixão...
Pequena Teoria da abertura textual (ou “Impróprio para gente com estômago forte” ou “Implicância com gente boa” ou “Sublimação não é pecado, mas, se fosse, era mentira” ou “Quem não leu não perdeu nada”)
“Todo texto é um texto aberto”.
É?
No meu instintivo conhecimento literário, ouvindo a frase de um professor de literatura, percebo que talvez eu possa ter perdido alguma coisa do significado “nomenclatural” da frase, mas, de todo modo, nasce o “mas espere um momento...” (ai, como gosto de uma discussão inútil!).
Quanto a dizer que um texto escrito, de um modo geral, passa primeiro pelo momento de sua criação e depois pelo momento de sua leitura, e que, nestes dois momentos, o texto se relaciona com realidades, com influências diferentes ligadas ora a seu autor, ora a seu leitor; evidentemente o texto escrito é passível de ter uma “abertura” (“o poema péssimo/ revela/ ao ser lido/ que há no leitor/ um poeta adormecido”, Ferreira Gullar); quando “abertura” significa que eu posso inferir um significado do que estou lendo, que posso entender do que se trata um texto qualquer, ainda que eu não chegue nunca a entendê-lo com a complexidade do escritor. Mas existe um acordo, um consenso sobre ele entre seus diversos leitores. É claro que, principalmente com o texto literário, as várias interpretações possíveis podem ser tão abrangentes que ultrapassam limites jamais imaginados por seu autor (sim, o texto, parido, é terra-de-ninguém): “todos lemos a nós e ao mundo à nossa volta para vislumbrar o que somos e onde estamos. Lemos para compreender, ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, como respirar, é nossa função essencial. O que diferencia a literatura das demais manifestações artísticas é que a literatura nos permite, pela interação cm seus textos, tomar contato com um vasto conjunto de experiências acumuladas pelo ser humano... lidar com sentimentos e dúvidas, emoções e perplexidades, enfim, todas as particularidades características dos seres humanos...” (Maria Luiza Abaurre). Nada é tão óbvio quanto a existência da possibilidade de diálogo entre o texto e seu leitor, repercutindo em muitas possibilidades de interpretação.
No entanto, há um parâmetro, um paradigma. E há dois extremos (só existe “aberto” por oposição a “fechado”, certo?). Existe um tipo de texto que é hermético, fechadíssimo (e portanto, pobre): aquele do qual exclusivamente seu autor pode inferir qualquer coisa, e tudo o que se pode dizer nele, não está nele; é superinterpretação. Criativo? Sim (há gosto pra tudo). Texto aberto? Não: por favor, não arreganhemos tanto.
Pelo significado da palavra “fechado”, algo “obstruído”, é impossível classificar como “aberto” o que não está, de nenhum modo, acessível. Radicalismo? Não. Juro. E provo (?).
Existem textos que rompem com o paradigma desses opostos, porque o sentido está justamente nessa ruptura (Andy Warhol ganhou muita fama assim; e não só com o texto escrito); se você não entendeu o sentido de cada um dos setenta fragmentos de “Eles eram muitos cavalos” (Luiz Ruffato), você vai pelo menos perceber algo de original quanto a sua estrutura e é nessa percepção que se encontra a abertura: façamos um experimento. Mil pessoas, diferentes idades, graus de escolaridade etc. Dê a elas, individual e incomunicavelmente o livro e pergunte o que entenderam dele. Podem não usar as mesmas palavras, mas vão perceber intuitivamente algo parecido com “...o texto se revela por golfadas. Como no título, palavras cavalgam, galopam...” ou com “...não sei se li poesia, se prosa, se prosa poética... Deparei com todas, o tempo todo. Sempre, só a inventiva ousadia e a ruptura de linguagem...”. Percebe? Nada chama mais a atenção, nada é mais aberto, dialogável, no livro, do que a sua estrutura, seu todo. Perfeito: mais um sentido de “aberto”.
Mas não é possível “abrir” tanto o uso de uma mesma palavra e classificar com ela uma significativa quantidade de acontecimentos literários (ou será que isso é possível e criticar essa “abertura” toda é uma rabugice? Um puritanismo? Um preciosismo?).
Gullar: “... o poeta/ desafia o impossível/ e tenta no poema/ dizer o indizível:/ subverte a sintaxe/ implode a fala, ousa/ incutir na linguagem/ densidade de coisa/ sem permitir, porém,/ que perca a transparência/ já que a coisa é fechada/ à humana consciência...”. O poeta corrobora este argumento porque posso entender o que ele quer dizer. E, embora ele esteja falando muito globalmente e eu possa fazer muitas interpretações ou usar o fragmento para apoiar muitos outros argumentos de naturezas bastante diversificadas, o poema é claro, não “perde sua transparência”; é acessível às minhas experiências, a minha interpretação de mundo. Tanto que posso usá-lo como ferramenta. Concorda com o argumento de que um texto “transparente” (“aberto”), mesmo rompendo com o que é usual, deve ser um texto claro, porque só assim pode ser acessível a outros, já que o seu significado no momento da escrita, o seu sentido para o autor, está “fechado à consciência humana”, possivelmente mesmo à consciência do próprio autor (terá ele conseguido dizer seu indizível? Coisificar a fala?). O seu extremo oposto é um texto fechado. Todos os textos devem ser abertos? Não. Principalmente os literários. Os textos herméticos são inferiores? Não. Não se trata de dar status, mas apenas de classificar racional e logicamente. Ou então não classificar nada. Mas com certeza de não sair por aí dando a gente prolixa, motivos para reflexões muito provavelmente isentas de qualquer funcionalidade (“...ter apego ao mundo/ é coisa dos vivos/ para o morto não há/ (não houve)/ raios rios risos...”, Gullar; de novo).
Estarei perdendo algum entendimento filosófico-literário? Então interpreta isso aqui: “a essência do universo perante o conflito do ego na construção do movimento dialético da natureza idiossincrática do todo”.

Como a candura pode se sentir tão indesejável?
Como pode questionar a vontade de estar perto e senti-la?
Como estancar a beleza do que é belo?
Ela confunde sua força com indelicadeza,
ilude o seu charme
e não nota seus dons.
Ela fala sobre as verdades da vida e vive
Reflete e flerta
Acalenta e inspira.
Ela quer aprender, quer ansiar, quer se entender e conhecer.
Quer ser um espelho, quer mirar e ver o infinito
e compreender as coisas do tempo
Ela sou eu quando estamos juntos, e nela vejo os olhos do mundo
E a simplicidade complexa de tudo que me faz sorrir e pensar
Ela sou eu e nem sabe, ou sabe.
Ela é o mundo em poucos segundos,
saboreando as cores e sons
deliciosamente ela,
Ela é brilho e por isso ofusca... nem ela o percebe,
E eu, fascinado, admito que ela me atinA.
"...É simples desse jeito quando se encolhe o peito e finge não haver competição/ é a solução de quem não quer perder aquilo que já tem e fecha a mão pro que há de vir..."
Não faço a menor idéia de quem é o autor dessa letra ou de quem é o grupo que a canta (e nem tenho curiosidade, o que uma rápida busca no Google resolveria), mas o bendito refrão me perseguiu o dia todo, a musiquinha, mentalmente me embalando durante o trajeto engarrafado de São Gonçalo até o Rio; durante a prova de História da Filosofia; durante o meu almoço; e até agora. Meu horóscopo sempre diz que gente do meu signo não acredita em misticismos e, como boa representante, não acredito mesmo; contudo, se algo martela, insiste, talvez seja bom conceder-lhe um pouquinho de atenção (afinal, já estava roubando minha concentração mesmo...).
Pra quem curte uma psicologia de auto-ajuda de bolso, as frases da tal musiquinha concordam em cheio com o Wayne Dyer. Pra quem nunca ouviu falar dele, é um psicólogo americano que amalheou certa fama ao publicar o best-seller "Seus pontos fracos", em quem enumera os principais sentimentos, atitudes, idéias que podem ser nocivas à nossa auto-imagem, ao nosso amor-próprio e consequentemente à nossa felicidade (auto-ajuda mesmo). O Dr. Dyer sempre diz que o medo do futuro, do que há de vir, de experenciar o novo é um dos grandes impedimentos à nossa plena vivência. É coerente: todo o esforço da sociedade ocidental, atualmente, não está voltado para uma espécie de segurança? Carro (assegurar o transporte para o lazer e as emergências médicas, por exemplo), casa (assegurar o abrigo quanto às intempéries climáticas, a segurança quanto aos malfeitores, um lugar próprio para receber quem lhe convir etc.), dinheiro (assegurar capital suficiente para suprir quaisquer necessidades aplicáveis a ele: alimento, saúde, moradia, vestimenta, lazer etc)... Estes são, em geral, os elementos aos quais aspiram a classe trabalhadora e dos quais não desejam ser destituídos os mais abastados. A posse destes bens é o próprio valor atrbuído a uma pessoa. Na sociedade brasileira, é inegável a força do preconceito social, sendo este ainda mais intensamente observável que o preconceito racial. Isso é verificável mesmo na língua que falamos. Por exemplo, muitas pessoas não sabem que construções lingüísticas como "dereito", "frecha", "despois", "frito", "premeiramente", hoje consideradas incorretas, são encontradas na carta de Pero Vaz de Caminha, de 1500. Com a língua, o que acontece é que existe uma variante que é mais prestigiada e, coincidentemente, ela é quase sempre a variante da classe social mais alta. Quem tem mais bens, mais status, diacronicamente tem tido também a preponderância lingüística. Logo, nada mais comum que associar a felicidade à posse de bens, que é o mesmo que associá-la à segurança, e também o mesmo que associar o valor de alguém à segurança que ela possa proporcionar para si e eventualmente para quem interessar possa. Daí o medo do que há de vir, de perder essa segurança.
Isso acontece também no plano pessoal, tão comumente traduzido na palavra "insegurança" que, assim tão repetida, parece esvaziar-se um pouco de toda a carga de sentido que efetivamente encerra em si mesma. Ser inseguro é ser também e em significativa medida, produto de uma soma de fatores externos (embora eu particularmente acredite na propensão genética de alguns seres humanos quanto ao desenvolvimento de certas patologias psicológicas). É ter medo, e, tanto filósofos da Antiguidade, como aristóteles, quanto psicólogos PhDs da contemporaneidade concordam que o sentimento de medo é absolutamente normal: mais que isso, é um comportamento biológico de auto-preservação (segurança). Essa busca muitas vezes inconsciente e desesperada por segurança de fato é determinada por fatores biológicos e culturais que são sinalizados clara ou subliminarmente para nós todo o tempo.
Por que haveríamos de lutar contra ela? Se é em certa medida, biológica, como e por que lutar contra nossos genes? Se é cultural, como e por que lutar contra aquilo de que, em verdade, desejamos loucamente fazer parte? Não parece fazer sentido uma crítica quanto a ser aquilo que estamos determinados a ser, de tantos modos.
Por alguma razão, talvez por tê-lo lido recentemente, lembrei da Ética a Nicômaco e seu esforço em definir, sistematizar, classificar, nomear, enumerar logicamente quais as atitudes, as normas a serem seguidas por um indivíduo qualquer que deseje alcançar a felicidade. Na Ética, a felicidade (o sumo bem) é justamente aquilo por que todos os homens estão buscando. Não se confunde com a riqueza porque a riqueza é apenas um meio para conquistá-la; não se confunde com as honras (o status) porque conferir honra a alguém é mais honroso do que recebê-la (e também porque, no fim das contas, se está contando com o reconhecimento das outras pessoas: "viu só como sou honrado?". E se as outras pessoas não reconhecerem essa honra porque todos no mundo enlouqueceram repentinamente? Então não se será mais feliz?); não se confunde também com os prazeres porque todos eles são passageiros e a vida, então, resumiria-se a uma constante busca por mais e mais prazeres que sempre tornariam a passar e serem novamente buscados, num ciclo interminável... Na Ética, a felicidade é o exercício das virtudes sobre si mesmo e sobre o próximo. A verdadeira felicidade. Os bens não são dispensáveis, como foi dito: apenas são considerados tão somente um meio.
Lembrei também do Fight Club, e sua filosofia de "você não é quanto você ganha", "não é o carro que você dirige", "não é o seu câncer de próstata", "não é sua conta bancária", "não é o seu cunhado". Lembrei também de Berkeley: "Esse est percipi" ("ser é ser percebido").
A verdade é que, como a respeito de qualquer outro questionamento, não encontrei ainda a resposta para a pergunta sobre o que é ser e o que é ser feliz nem na Psicologia, nem na Filosofia, nem na Música (não quis dizer que qualquer delas tenha se proposto a responder) e muito menos na poesia ("A felicidade é um bem que almejamos mas nunca conquistamos porque está sempre onde a pomos e nunca a pomos onde nós estamos" - de quem era mesmo essa poesia?... Alguém verifica no Google pra mim?).
O fato é que a música que deu início à minha salada textual, de algum modo, me comoveu. Não sei dizer o porquê, mas, se isso importa, deve ser porque ainda existe algo de idealista em mim - como em muitas outras pessoas - que busca, ainda mais desesperadamente do que busca a supracitada segurança, a libertação de comportamentos determinados e/ou reducionistas: afinal, como ser humano e, portanto, racional, não posso (no sentido de "não me permito") abandonar-me à mercê de comportamentos puramente biológicos (puxa! é justamente a capacidade de raciocinar que nos separa do restante da alimária existente na Terra - e também o que salva a teoria cartesiana do ceticismo...), e também não posso aceitar sem contestar aquilo que outro ser humano tenha determinado para mim, não importa de qual modo, antes mesmo de eu nascer... Idealisticamente eu quero ter algum controle, quero questionar e entender e quero ser corajosa (no sentido aristotélico).
Provavelmente a música me comoveu porque eu também tenho medo. Não tanto de perder o que já tenho (embora eu dê muito valor para o que é meu), mas de perceber pessoas que amo perdendo a si mesmas para essa insegurança, que se mostra de tantas formas que às vezes nem se mostra. Que às vezes deturpa tanto a visão dos homens, que além de mentir a eles sobre si mesmos, o faz também sobre as outras pessoas. Que às vezes entristece tanto que desacredita, que ceticismifica. Que faz com que aquilo que deveria ser, torne-se algo que apenas poderia ter sido.
Atenção: republicação. Original: 17/07/06 - 21h49min
Na última noite de domingo, depois da humilhante derrota do Brasil para a França, eu tive a feliz lembrança de assistir ao documentário "The root of all the evil?", do biólogo inglês Richard Dawkins. Eu não faço parte de torcida de futebol nem mesmo para o Brasil e durante a Copa do Mundo, no entanto até eu queria que o quadrado mágico tivesse dado um show. Não deu. Apesar disso, a seleção não voltou pra casa, literalmente (apenas dois dos vinte e três convocados jogam em solo pátrio. E de repente abocanharam já algum contrato lá fora). E eu não fui ao cinema, menos por uma questão de solidariedade que por preguiça... Aí entra o Dawkins.

O documentário trata do pensamento religioso e sua surpreendente influência nas sociedades da atualidade. Na fita, o biólogo exprime sua perplexidade ante toda a comoção, em pleno século XXI, em torno das devoções religiosas, às quais é conferido o status de verdade indiscutível em pelo menos três principais grandes vertentes teocêntricas: o cristianismo (catolicismo ou protestantismo), judaísmo e islamismo.
O objetivo de Richard Dawkins é refutar uma corrente de pensamento que vem ganhando força e sendo amplamente disseminada nos colégios americanos; um criacionismo disfarçado que afirma ser Deus o autor de todo o esquema evolucionista, e que Ele idealizou este esquema tendo o homem como objetivo último, sua criação mais perfeita. Isso contradiz a seleção natural darwiniana, em cuja tese, somente o mais apto de uma determinada espécie, o mais adaptável às freqüentes variações do meio, sobrevive; chegando assim à variedade de espécies existentes hoje.
Professor da Universidade de Oxford, o cientista visitou diversos lugares: igrejas, escolas religiosas, o muro das lamentações... E conversou com variados indivíduos sobre sua profissão de fé. E fé, para Dawkins, é como um vírus que precisa ser urgentemente exterminado. O motivo? Ela seria possivelmente a raiz dos maiores males do convívio em sociedade (na versão protestante da Bíblia Sagrada, o amor ao dinheiro é que é descrito como a raiz de todos os males;1ª Timóteo 6.10. Um trocadilho?). Isso porque todas as organizações religiosas trazem consigo, sem excessções, o seu modus vivendi, um conjunto de regras com seu "pode-não pode", sua própria moral, regida por seu Deus; sua própria Verdade - com D e V maiúsculos.
Nos muitos locais visitados por Dawkins, o cientista falou com diversos representantes destas facções a respeito de suas convicções e procedimentos.
O que parece espantar o estudioso é o fato de que, mais do que acreditar - e 75% da população americana acredita - no Criacionismo, as escolas têm em sua grade curricular horário mais do que suficiente para ensiná-lo aos pequenos. Isso em se tratando de escolas freqüentadas por todos. O mais preocupante para o biólogo são os colégios católicos, batistas, judeus, islâmicos etc; nos quais a educação da criança é baseada exclusivamente nas crendices, inculcando-as irreversivelmente em seus cérebros, tão suscetíveis nos primeiros anos de sua formação (novamente na Bíblia: "ensina o teu filho no caminho em que deve andar e até quando crescer não se desviará dele"; Provérbios 22.6).
Fazendo um paralelo, o psicólogo Wayne Dyer afirma, em seu best-seller Seus pontos fracos, a respeito da pessoa cuja moral está ligada a uma instituição religiosa: "...comporta-se de acordo com a moral não porque acredita que esse é o comportamento que lhe é apropriado, mas porque Deus quer que ele assim se comporte. Se estiver em dúvida, consulte os mandamentos, em vez de consultar a si próprio e aquilo em que acredita. Comporte-se bem porque alguém lhe disse para fazer assim e porque será punido se não o fizer, não porque sabe que esse é o comportamento adequado para você..."
E estes religiosos estão em busca da recompensa em outra vida. Seu objetivo é não cair na danação eterna, não importa o que isso vá custar enquanto estiver vivo. Será uma honra se, inclusive, custar-lhe a prápria vida.
O pastor e idealizador da peça Hell House, na fita, diz, sobre ela: "o inferno tem que ser retratado como o lugar para onde você absolutamente não quer ir".
Uma psicóloga, professora universitária, instada por Dawkins a falar o que sabe sobre o inferno, emociona-se: "É um lugar para os rejeitados por Deus". E prossegue afirmando que aterrorizar crianças com esse tipo de coerção diabólica, para conseguir que tenham um determinado comportamento, é um abuso infantil.
Questionando quase todos os seus interlocutores a respeito do Evolucionismo, Dawkins ora é praticamente expulso por eles, ora recebe curiosas respostas, do tipo: "não estamos interessados nessas questõezinhas acadêmicas. Acreditamos e pronto."
Nos colégios judeus e islâmicos as crianças são separadas do restante do mundo. Vivem em suas comunidades, brincando somente com crianças destas comunidades, sendo ensinadas nas escolas destas comunidades, indo aos eventos destas comunidades, sem televisão ou sabe-se lá mais o quê...
Acreditam que Deus criou o universo, há 6000 anos. Acreditam que Deus inspirou profetas com seu Espírito Santo para escrever seus respectivos livros sagrados: o Alcorão, a Torá e a Bíblia Sagrada. Acreditam na arca de Noé. Acreditam que Deus enviou ou enviará um messias. Acreditam em céu. Acreditam em inferno.
Para Dawkins, Deus, duendes, fadas e cogumelos invisíveis intergalácticos nos observando tem a mesma e nula influência e aplicabilidade no mundo real: não se pode provar que não existem, mas nem por isso se deve acreditar que são responsáveis pelo que acontece por aqui. Tampouco poderia ser real a história do dilúvio, já que é impossível chover 7000 metros de água por dia, durante qurenta dias e, pelas medidas da arca, adaptadas à métrica atual, a manutenção de todas as espécies que temos hoje, somados à família de Noé e aos alimentos para manter todos vivos, dentro da minúscula embarcação. O mesmo absurdo seria crer na existência do inferno: equivale a dizer que em alguma parte do núcleo da massa terrestre o Mickey Mouse está armado com um enorme e fumegante tridente esperando os rejeitados de Deus para o tormento eterno. Dawkins acredita em fatos. E como tal, tenta apresentá-la aos seus ouvintes.
Analisando trechos do Antigo Testamento da Bíblia Sagrada, por exemplo, um em que o sujeito era autorizado a matar outro que lhe convidasse a adorar outro Deus, Dawkins chega a afirmar que "Deus é a personagem mais desagradável de toda a história da ficção".
Estruturando suas visitas do pólo religioso mais tranqüilo ao extremo mais ortodoxo e perigoso, Dawkins passa por sujeitos que defendem a pena de morte para os homossexuais, atentados a clínicas de aborto (em Estados em que a prática é legalizada), até chegar em um americano recém-convertido ao islamismo, que afirmou para as câmeras que os não-muçulmanos vestem suas mulheres como prostitutas, fornicam pelas ruas etc., e que não somente tinha certeza de que ele e seus companheiros podiam mudar o mundo como iriam fazê-lo.
(link para o site: http://www.simonyi.ox.ac.uk/dawkins/WorldOfDawkins-archive/index.shtml)
Um sábado chuvoso no interior do Rio me trouxe novamente Match Point. E, como Woody Allen sempre me foi irresistível, lá fui eu, pipoca em punho, rever o que a contracapa do DVD descrevia como "um thriller intenso e cheio de suspense sobre ambição, a sedução da riqueza, sexo, crime - e o mais importante: o enorme papel que a sorte tem em nossas vidas"... Raramente essas sinopses conseguem acertar o tom do filme. Com esta não foi diferente, porque a temática é sobre tudo isso, mas também é sobre muito mais; é sobre o que fica implícito; é sobre o que eu ou você faríamos. É sobre a moral.
Chris está dividido entre sua mulher - bonitinha, inteligentíssima, divertida e endinheirada - e sua amante - lindíssima, sexy, pobre, grávida e ameaçando contar sobre o caso de ambos à primeira - e, mais apaixonado pela boa vida que leva do que por sua voluptuosa aventura extra-conjugal, decide, como medida desesperada, matá-la.

Chris não é um cara legal. É um alpinista social inescrupuloso e aproveitador, sem respeito pelos sentimentos, necessidades ou a própria vida dos outros; a tal criaturinha egoísta que Tomas Hobbes acredita ser o homem em seu estado natural. Tal como o Giges platônico, Chris acredita que faz o que faz porque é o que precisa ser feito para atingir seus objetivos que, no fim das contas, são as únicas coisas que realmente importam; o outro, como sua milionária esposa Chloe, é apenas um meio para o sucesso. Por isso ele tenta se dar bem com as pessoas que podem ajudá-lo (os sogros, a esposa, os cunhados), se manter longe de problemas (não tinha nenhum antecedente criminal, nem mesmo multas por excesso de velocidade). E quando algo realmente ameaça tirar a sua paz de espírito (ou melhor, os dólares de sua conta bancária), encontra um meio de eliminá-lo. Quando se justifica com Nola, num sonho mirabolante, diz: "Foi difícil, mas quando chegou a hora, eu apertei o gatilho", o que equilvale a dizer "sinto muito, mas o meu vem em primeiro lugar".
Ele não acredita em Deus, do contrário, nem teria começado a se relacionar com a ex-cunhada gostosa, afinal, em Sua ira, o Todo-poderoso o lançaria sem escalas direto no colo do capeta.
Segundo a teoria do contrato social, o homem é "o lobo do homem", ou seja, estamos o tempo todo inseridos numa batalha de um contra todos e, se agimos cordialmente é porque temos medo das sanções ou porque, de algum modo, contamos com a utilidade do outro para concretizar nossos ideais. Chris encarna essa idéia com perfeição. Nola está fora do escopo de sua moralidade quando já não é mais útil, mas um problema; quando matá-la, através de um plano bem-arquitetado, não lhe trará punições. E com a morte de Nola, não há mais traição, não há mais filho ilegítimo, nem prejuízos financeiros. A teoria do contrato social não fornece uma justificativa e sim um cálculo do que é mais lucrativo e prudente a se fazer.
Chris não é um canalha para a esposa e seus parentes. Nem para a teoria do contrato social. Mas o é para nós. Por quê? Segundo a teoria do contrato social, Nola não é mais útil e nem uma ameaça e, por isso, Chris não teria obrigações morais para com ela. Mesmo assim, nós não a queríamos morta (os homens, por motivos óbvios!) e o detestamos por matá-la.
Então podemos pensar que a resposta está em Kant: ele deveria ser um cara mais razoável porque, caso contrário, estaria sendo inconsistente. Kant é categórico: devemos agir de acordo com a máxima tal que as atitudes sejam de aplicação universal. Fora disso, tudo é imoral. Se todo mundo saísse por aí mentindo, então a palavra de ninguém teria valor; se todos fossem caloteiros, então ninguém mais emprestaria e assim por diante. Mas há uma falha aí. Se eu dissesse a Crhis: "Ei, você não deveria agir assim porque você está sendo inconsistente. Se todo mundo saísse por aí matando ex-amantes, ninguém mais manteria relacionamentos e a espécie humana se extinguiria! Tenha juízo e resolva as coisas do jeito certo!", então ele talvez me respondesse: "Okay. De um modo geral as pessoas não devem sair por aí fazendo isso. Mas qual é o problema se só eu me resolver a fazê-lo?". Novamente, estamos sem resposta. Como explicar a Chris por que ele deveria ser moral?
Uma possível saída seria argumentar que alguns de nós temos sentimentos, como amor, carinho, compaixão etc.; que alguns de nós simplesmente não reduzem os princípios de suas atitudes ao utilitarismo. Mas isso não é uma justificativa, é uma explicação causal; como se alguém perguntasse a Chris: "Como você pôde fazer isso à Nola???" e ele respondesse: "Bem, primeiro eu roubei uma espingarda de caça, depois liguei para ela, matei sua vizinha para confundir a perícia e por fim atirei nela". Chris estaria dando uma resposta causal, quando na verdade o que você queria era uma justificativa para que ele conseguisse prosseguir com plano tão cruel.
Talvez a resposta esteja na cultura. Aristóteles apregoava que a sociedade precede o indivíduo e, com ela, virtudes como justiça, moral etc., nas quais o sujeito é doutrinado desde o seu nascimento.
Penso que as razões para ser moral, o porquê de agir desta ou daquela forma, é uma interrogação à qual não se pode responder. Não é por isso uma questão irracional. É apenas arracional, que não se pode racionalizar.
Nietzche disse, certa vez: "Torne-se aquilo que você é", o que você exige de você mesmo não em função do olhar ou da punição do outro, mas de certa noção de bem e mal, do admissível e do inadmissível, da humanidade que há em você mesmo. Enfim, da noção de você em você mesmo. E, seguindo este raciocínio, o julgamento do outro também não interessa. Chris pode me virar as costas e praticar um eventual assassinato. Um amigo pode me "dar uma volta" num empréstimo ou me pagar centavo a centavo, superagradecido; um namorado pode me "dar uma pernada" num fim-de-semana na Bahia ou estremecer de saudades da minha voz e beijos; e eu posso acabar grávida e morta pelas mãos de uma canalha inconfesso ou mãe feliz de sete filhos de um pai maravilhoso.
Não há resposta para a questão fundamental da moralidade: "Por que ser moral?". E também não dá pra fazer julgamentos. Chris se deu bem, sem punições, com uma bela família e muita grana no bolso. Nola se deu mal, bela, jovem, grávida e extinta. E tudo foi apenas uma questão de tornar-se aquilo que você realmente é.
Um sujeito, no mínimo cinqüentão, descobre que morrerá em pouco tempo, em decorrência de um câncer. Quando sai da infeliz consulta oncológica, entra em seu carro (pintado de rosa-bebê) e respira profundamente. Todas as coisas simples do dia-a-dia, como beber um copo d’água, ingerir uma refeição, caminhar por um parque, retêm agora em si significados de proporções incomensuráveis. O sujeito sabe que sua morte está próxima; infelizmente, muito mais próxima do que ele gostaria.
Okay. Eu e você já assistimos a milhares de filmes com este tipo de enredo. O que fará o sujeito? Reconciliar-se com a família? Fazer as pazes com antigos e novos inimigos? Passar seus últimos dias recluso num templo budista? Adotar via conta bancária uma criança africana? Escrever um livro? Escrever dois? Sua biografia? Estudar filosofia? Aprender a tocar um instrumento musical? Revelar ao mundo que é gay? Plantar um jardim?
O que você faria?
Qualquer destas coisas, se o nosso sujeito as fizesse; ou quaisquer outras mais que ele inventasse para fazer talvez resultassem num bom filme, porém não resultariam em Jogos mortais 1 e 2. Nosso protagonista compromete-se a passar o período que lhe resta no planeta azul testando o tecido humano. Ele virou um cientista? Não. Um serial killer: Jigsaw, um carinha que obriga viciados, bandidos, assassinos etc a participarem de seus joguinhos super sem-graça. Claro que ele ainda consegue fazer uma discípula.

Taí a forma interessante como funciona a mente de um psicopata: quem pensa como eu, está salvo. Quem não pensa como eu, está condenado. O que me lembra bem os moldes maniqueístas religiosos: certo x errado, bem x mal; alguém detém a Verdade. O maluco do filme pensava que, sob o risco iminente da morte as pessoas liberariam o que há de mais verdadeiro, de mais básico em si mesmas – o instinto da sobrevivência, a qualquer custo. É diferente nas religiões? Aqui, quem determina o que é certo e o que é errado, é sempre uma “entidade espiritual”, que é o próprio poder e a própria verdade. Quem não concorda com seus desígnios é punido com a ameaça de passar a eternidade em um lugar de horror e torturas. Jigsaw diz que suas vítmas têm uma escolha: obedecer as regras e viver ou desobedecer as regras e morrer. As religiões apregoam exatamente a mesma coisa... Essa escolha ainda é, ousadamente, apelidada de “livre-arbítrio”. Livre-arbítrio? Alguém perguntou “do you want to play my game”?...
De volta ao foco, as películas são verdadeiras miscelâneas de Seven, O clube da luta (boas recordações de Brad Pitt) e Minha vida, com toda a maldade e ausência de misericórdia do antigo Testamento.
Ambientado num quintal de açougue, estrelado por atores semi-iniciantes e baseado em filosofia de bolso, só a surpreendente criatividade na elaboração das torturas é que traz algo de novo às fitas. Ui. Eca. Tomara que não venham mais continuações...
Se existe uma coisa de que eu gosto na mídia, inusitadamente esta coisa é... comercial!
É isso aí: eu me amarro nas propagandas; televisivas, principalmente. Claro que, como raramente assisto TV, quando o faço não é pela expectativa de qualquer salsicha dançante. No entanto, durante os jogos do Brasil na Copa do Mundo, exibidos pela Globo com exclusividade (ou melhor, “monopólio”), eu finalmente lembrei de que possuo um aparelho televisor, tirei a poeira do botão power e deixei a geringonça funcionando. E alguns dos anúncios dos intervalos deram o show que foi esperado do quadrado mágico e que não veio.
Será que alguém mais percebeu (os comerciais, claro)?
Eis minha seleção de diletos e execráveis e seus por quês.
De saída, não gosto de comerciais protagonizados por competidores, apresentadores, modelos etc; artistas globais, em particular. Alguém já conferiu a dupla Cicarelli-Dunga anunciando um fabricante de carros? É, no mínimo, vexatória, a chamada que traz a ex-Fenômeno (com f maiúsculo mesmo: o Fenômeno era o Ronaldo. Era.) e o jogador (mais relegado ao ostracismo – espero! – após o mutismo despeitado que exibe ali, em cadeia nacional). A idéia é fazer elogios desmedidos, em um suposto programa de Cicarelli, ao competidor. Mas não, ela não está falando de Dunga: na verdade, está falando dos carros. Ok. Só que não tem elemento-surpresa: ninguém jamais atribuiria metade dos adjetivos enunciados pela moça a ele... Ah, eu nem precisava tentar explicar; o comercial é ridículo mesmo.
Aliás, em geral, propagandas estreladas por figurinhas conhecidas e pseudoconhecidas não têm idéia, comicidade ou reflexão; baseam-se apenas na fama ou pseudofama do sujeito que faz o apelo. Tanto é assim que não é qualquer desses profissionais que pode virar garoto-propaganda. Apenas aqueles que são tidos como muito conhecidos, muito carismáticos ou muito confiáveis, ou seja, aqueles que não vão “manchar” a imagem do produto ou serviço que estará associado à sua própria imagem.
Outro tipo de comerciais singularmente maçantes, são os que trazem clichês sexistas. 1: Uma moça desocupada, rolando numa grande cama de casal está se esforçando por narrar para o belo companheiro, ao celular, uma partida de futebol: “o da coxa bonita passou pro bonitão. O bonitão devolveu pro da coxa bonita. O da coxa bonita jogou pro cabeludo...”. O namorado, ocupadíssimo, ultracondescendente com a namorada cabeça-de-vento e, no mínimo bilíngüe, está entendendo tudo. Corta para a explicação do plano de minutos da VIVO (tem até gráficos, pra todos entenderem direitinho!!!) e volta para a fêmea-padrão-que-não-sabe-nada-de-futebol-que-é-um-esporte-pra-sujeito-macho, para que ela solte a pérola derradeira: “Ué, agora eles estão do outro lado do campo...” 2: Um garoto está arrumando, impaciente, sua mochila, enquanto sua mãe está tagarelando: “... Não esquece, hein, filho? Comporte-se lá na casa do seu pai – garfo na mão esquerda, faca na mão direita...” Corta para uma mão que prepara vagarosamente uma ave, enquanto uma voz anuncia que o tal caldo de galinha vai fazer do seu frango assado um momento mais do que especial (por favor, sem piadas infames). O frango está agora na mesa e o garoto está todo atrapalhado, tentando obedecer às recomendações da mãe. O pai, um cara legal, se penaliza e passa a comer com a mão. O garotinho segue o exemplo, todo contente. Na volta para casa, a mãe, uma neurótica incorrigível, estranha a mão engordurada do filho, que pisca para o pai, todo cúmplice. O pai é um sujeito gente nossa. Imagine se alguém diria que ele é um desleixado que não cuida da higiene do filho pequeno, deixando o moleque andar por aí com restos do almoço nas unhas...
Não dá.
Ruins também são os anúncios sobre a programação das próprias emissoras (estivemos falando de TV aberta) ou aqueles de divulgação de CDs, DVDs etc.
Porém nem tudo é desprezível no reino televisivo durante as pausas entre uma banalidade e outra: de algumas propagandas saem até mesmo boas discussões lingüísticas. Exemplo? A campanha dá-dá-dá da Pepsi. Afinal, o arremate do anúncio é quando alguém pede o refrigerante a outro alguém que nega, fazendo o característico ruído... ã-hã, ã-hã, ã-hã???? “Mas ã-hã não quer dizer sim? E ã-ã é que significa não”, observa um amigo meu. “Bem, há controvérsias...”, respondo, fingindo não notar seu olhar irônico de descrença. Ora eu precisava defender o esperado bom-senso dos marqueteiros contratados pelo fabricante da minha Twist do coração... Mas será que existe mesmo alguma controvérsia?
Há também os que ressuscitam antigos sucessos, como aquele em que vegetais frescos são exibidos ao som de “raindrops are falling on my head...” – o que pode acarretar juntamente a ressurreição de antigas pilhérias: “raindrops are falling on my dick...” (thanks, dear, for the correct forms in this sentences...)
E há aqueles que não se apóiam em nada que já tenha feito sucesso antes. Ainda bem. São só inteligentes. E bem menos custosos. 1: Um funcionário entra na sala particular de uma executiva para entregar-lhe alguns papéis. A mulher leva um susto daqueles e começa a berrar desesperadamente, aparentemente só cessando o escândalo muito depois que o rapaz já saiu de sua sala, aterrorizado, fechando a porta atrás de si. Todos no andar observam. Ninguém entendeu nada. Entra a voz do anunciante: use a nossa lingerie, que não tem costuras e não deixa marcas. Você vai esquecer que está usando roupas... 2: o comercial do recém-lançado Mini Club Social. Não dá pra explicar; tem que assistir. 3: Zeca Pagodinho, depois de umas brincadeiras com uma bola, Brahma em punho, gesticula uma mensagem de solidariedade à seleção brasileira – daqui a quatro anos a gente tenta de novo. Tá, até aí, normal. O cômico é o fato de que o comercial foi veiculado apenas poucas horas após a quadrada e mágica derrota parreirense na Copa. Não dava deixa-lo pronto e distribuir pelas emissoras em 2 ou três horas...
Agora, indiscutivelmente impagáveis são os multifacetados priceless da Master Card, largamente reproduzidos, desde a net até os botequins-ao-rés-do-chão. Todo mundo sabe de alguma coisa que não te preço. E que, pra todas as outras, existe Master Card...

Sacou? Comerciais podem ser um show de inteligência e bom-humor!... Qualidades que, aliás, resumem quase tudo o que se espera de uma boa companhia...
E alguém duvida que isso aconteça?
Estava conversando com um amigo, esta semana mesmo, que me dizia sentir saudades dos amigos de infância. Problema de simples solução: ligue, marque um encontro! O que o impedia? "Já estão todos mortos", respondeu-me. Oh... que coisa chata... Mas... Se ele não tem nem quarenta anos, como podia ser? Meu amigo estava sorridente e disse, todo emblemático: "Estão vivos, aí pelo mundo; mas já estão todos mortos".
O que meu amigo queria dizer com isso é que o tempo, que não pára, promove tantas mudanças às personalidades, alterando gostos, cheiros, medidas, gestos, timbres, sentimentos, que, quando você se dá conta, a pessoa que você conheceu, amou ou odiou por causa de um punhado de aspectos na essência do que ela era, essa pessoa já morreu. Pode estar de pé, tagarelando à sua frente, a roupagem mais ou menos correspondente à imagem mental que você fez daquele indivíduo, de algum modo relevante para a sua própria existência. Mas não passa disso: uma roupagem de que aquela essência já se revestiu. Isso pode acontecer com pessoas com quem você não tem contato há muito tempo, mas também com aquelas com as quais você se comunica todos os dias... Quando isso acontece, quem você amou, odiou, admirou ou perseguiu, simplesmente se extinguiu, só existe na sua lembrança.
Por quê? Porque o tempo não pára, porque o tempo muda tudo. Porque esta pessoa não era, para você, o que ela era, mas um somatório de características que vc considerou significativas, por alguma razão, e de você mesmo, naquele tempo; o conjunto que você representava para vc mesmo. Meu amigo também falou isso em seu desabafo franco: "Mas não era dos amigos, só, sabe? Era do que era a minha infância".
Então, quando o outro muda ou quando nós mesmos mudamos aquilo que é significativo, o equilíbrio se desfaz e alguém morre - nós ou o outro. Claro que sempre parecerá que foi o outro - é nosso defeito de fábrica, a excessiva autopreservação.
Quando alguém morre em vida - nós ou os outros -, pode deixar apenas lembranças ou ceder seu lugar a uma nova criatura - acontece, aí, um nascimento. Admitimos que o amigo ou amado está "diferente", e é acentuado em nós o sentimento que cultivávamos por ele. Porque, assim como ouvimos dizer: "você não é mais o mesmo" com tonacidade amarga ou decepcionada, podemos ouvir (e proferir) a mesma frase com a admiração feliz do inesperado. O resultado será, no primeiro caso, a ruptura, a quebra so equilíbrio, acompanhada do luto, da despedida - um fulano morreu. No segundo caso, será a mesma quebra, associada a profundo interesse - vc é mesmo fulano? a aparência me diz que sim, mas a essência me diz que não. Lembro de um conto, não recordo o autor (fico devendo, mas pago!), em que a personagem principal era um homem, que havia sido torturado durante a ditadura militar e lembrava perfeitamente quem era seu algoz. Anos mais tarde, muda-se para um condomínio residencial e justamente no seu vizinho, pai do melhor amiguinho de seu filho, ele reconhece o seu carrasco. No conto, ironicamente eles surpreendem-se um com o outro e tornam-se bons vizinhos, resolvendo deixar o que era passado para trás. Já em outro conto (esse eu lembro!), O inimigo, de Rubem Fonseca, o protagonista nos narra sua saudade dos tempos de infância. Vai atrás de seus melhores amigos, Ulpiniano-o-Meigo, Mangonga, Najuba, Félix e Roberto, apenas para descobrir que quase todos já são mortos-em-vida na sua história - apenas um deles não o é, e porque já está efetivamente morto... Assim ele conclui: "Que adiantava eu perguntar se ele se lembrava de uma coisa que ele queria esquecer? Quem queria lembrar-se era eu, que não queria construir nada de novo".
Sim, existe muita morte em vida. Quantas coisas morrem em nós mesmos! A cada empreendimento que não funcionou ou que foi vitorioso, morre e renasce um pouquinho de nós. Também a cada nova pessoa que conhecemos, a cada nova leitura que fazemos, a cada novo filme a que assistimos, a cada novo acontecimento com que lidamos... Com tantas pequenas mortes, com tantos novos nascimentos ocorrendo em nós mesmos todo o tempo, quem certamente afirmaria que já não morreu ou renasceu para alguém?
Um grande amigo pode morrer e deixar em seu lugar um estranho, um inimigo ou um irmão. Um inimigo pode morrer e emprestar sua matéria física a um novo grande amigo, a um novo amor, a um inimigo ainda mais impiedoso ou a alguém a quem somos completamente indiferentes...
Por que não estar atento aos acontecimentos presentes, ao invés de manter-se no passado ou no futuro, lembrando do que alguém ou você mesmo foi, ou projetando isso para o doravante? É melhor ater-se ao presente, em que - vamos apostar no melhor! - você pode estar prestes a perceber o surgimento de alguém muito especial, mesmo numa roupagem antiga...

Sim, eu também sou fã dos X-Men. Não tanto dos quadrinhos (eu ainda não li todo o Nietzche, nem todo o Lacan, muito menos Dostoiévski; não dá pra desperdiçar meus olhos com mais este prazer fútil - se bem que eu leio mangás e a maioria dos prazeres são fúteis...), mas sou fã da animação, a que assistia sempre, quando mais jovem, na hora do almoço e a que assisto hoje em dia, já menos jovem, preparando o almoço... Fui conferir, empolgadíssima, cada um dos três filmes da série e, confesso, de longe o último é o que mais decepciona. De um modo geral - e para um desconhecedor da saga - o filme foi bem estruturado: trilha sonora, atores que já são rostinhos conhecidos - o que é um plus para atrair a geração-pipoca - (e embora alguns só sejam conhecidos graças ao primeiro X-Men), efeitos de alta qualidade... Mas, gente, eu não sou crítica de cinema (nunca sonhei com essa profissão, em criança) e percebi uma porção de incongruências... Principalmente quanto à caracterização das personagens: alguém aí já encontrou em alguma revistinha ou em algum episódio animado do grupo, uma Tempestade tão inssossa? Uma Vampira tão chorona e sem atitude? Um Scott Tão desequilibrado? Uma Fênix tão monótona e passiva? Um Xavier tão burro? Um Logan tão bem-humorado????
De onde saíram essas personalidades tão fracas e irritantes???? Me fazem imaginar que, ou os diretores basearam-se em algum HQ apócrifo ou em imagens caricaturais dos intérpretes dos nossos garotos-X... Ou talvez esta seja a infeliz história nunca contada - agora se sabe porque: é muito chata!!! - de como os patinhos feios medrosos, isentos de espírito de liderança e equipe, bobos e clichês conseguiram se transmutar - a verdadeira mutação! - nos cisnes chamados X-Men, dos quais somos fãs.
Tomara.
Só o Magneto era realmente o Magneto: determinado, focado, coerente e - tá! - sem escrúpulos. Mas, vilão?????
A própria idéia de Bem X Mal alavancada na fita é, no mínimo, ridícula. Na sessão em que estive, a galera aplaudiu e assoviou, animadíssima, quando o Magneto "teve o fim que merecia". Magneto era malvado???? Ah, vamos lá, pessoal! Não há espaço para mocinhos e bandidos nos X-Men; porque na dialética da trama original, todos tem seus motivos mais que justificados e compreensíveis para defenderem a posição que defendem, sem possibilidade de classificação entre "certo e errado": os humanos, medrosos impotentes que não tem coragem suficiente para declarar mas sim para maquinar o extermínio da raça mutante; a Irmandade de Magneto visando exclusivamente o bem-estar da galera do gene X; e os alunos do professor Charles Xavier, diplomatica e fisicamente tentando mediar um acordo de paz. Porém, em X-Men 3 só a causa do professor fica mal-apresentada e, portanto, incompreensível: ou a pessoa sai do cinema achando que os superdotados da mansão X são uns traidores sem-noção ou sai achando que são o máximo, porque são fãs e ponto final...
Pois é. Falar mal é muito fácil, mesmo. Ainda mais de uma fitinha tão ruim!!!
Vou parando por aqui. De repente, na semana que vem estréie alguma coisa legal...

Há quem não goste de usar as antiquíssimas barcas para atravessar a Baía de Guanabara. Os motivos são muitos: assentos de de madeira desconfortáveis, pintura descascada, chão gasto, paredes, privadas e pias dos banheiros marcados por fios de água amarelada pela ferrugem, baratas por todos os lados, além de o bebedouro, muitas vezes, ser utilizado mutíssimo mais como escarradeira... No entanto, não sei que ar nostálgico me envolve toda e me faz encantada do grande barco se arrastando ondulante... Neste momento dramático da minha existência em que meu próprio corpo (do qual tanto cuido, limpo, perfumo e enfeito) me fere, rompendo minhas gengivas no processo de nascimento dos quatro dentes cisos ao mesmo tempo (sim, estou me tornando adulta. Espero.), nestes trágicos instantes de agressividade inerente e initerrupta, o funcionário embarcado me toma pela mão e me auxilia a passar do "flutuante" para a proa. Assim como faziam os cavalheiros para tirarem para dançar as donzelas nos bailes dos séculos passados.Por um momento esqueço-me de que ele o faz com todas as mulheres, crianças e idosos - os históricamente mais frágeis - e, comovida, até olho-o nos olhos, lisonjeada. Para constatar que ele já me ignora e que me resta apenas sorrir e prosseguir para o interior... Encontro meu lugar aleatoriamente (não sou daqueles que já tem o "seu" lugar cativo até nos transportes coletivos - mas no cinema, sim!!!). Às vezes vou de pé, fora, sentindo o vento gelado no rosto, desgrenhando meus cabelos, e um frio na barriga, quando do sobe-e-desce mais elevado. A travessia nas barcas, vagarosa, me afasta do excesso, da velocidade intempestiva da informação e da deformação; das depreciações e hipocrisias que observo, com gosto amargo na boca... É um mundo à parte. Uma terapia sem comprimidos calmantes, copinhos descartáveis ou água - doce, pelo menos! Uma terapia que é difícil admitir o quanto é benéfica, da qual nomeio por tolices, debocho, pilherio e zombo, mas que está sempre, indiferentemente inconsciente e generosamente acessível a minhas noites solitárias, quando, após certificar-me de que ninguém me espia, relaxo, recostada e penso, toda plenitude, que é muito bom ver o oceano... que também é muito bom respirar, saborear o que se come, abraçar, cantar, dançar, tocar violão, gargalhar, viver. E que há uma coisa qualquer na minha essência que é só minha, não importa o que digam sobre a individualidade ou sua inexistência, não importa se eu não sou especial. Importa saber que eu vou escutar e seguir o tambor que toca nos meus ouvidos, mesmo que a minha música seja diferente das que escutam meus amigos e meus amados... Penso também, que sou humana e que essa consciência da minha humanidade significa aceitar as minhas limitações com bom humor, embora, às vezes, eu me deteste...
Daí a pouco toca o apito (ou a "taboca", como apelidaram os embarcados). Eu levanto do meu nirvana e sinto que muitos estavam na mesma entrega espiritual meditativa. Desço as escadas, invariavelmente observando as placas de "desça com atenção" que têm a ilustração de um bonequinho, comicamente levando um baita escorregão). Tomo um coletivo e vou para casa.
Sobre: "A mulher desiludida", de Simone de Beauvoir. Teatro UFF. Com Guida Vianna. 12/02/2006
Beauvoir por Guida
A personagem de Beauvoir beira os cinqüenta anos e vive só, sem absolutamente nada para fazer em plena comemoração de Ano Novo, a não ser rememorar sua própria história – e reclamar da vizinhança.
Ao ler as páginas da autora, é comum que os sentimentos dos leitores sejam sóbrios, quase melancólicos – embora haja sempre um leve toque irônico nas expressões da personagem –, já que a narrativa trata de alguém à beira de um ataque de nervos; incapaz de lidar com sua própria solidão, suas tragédias e com os rumos que sua vida tomou.
Na atuação de Guida, no entanto, o monólogo toma ares de pastelão. E, exposta dessa forma caricatural, a interpretação de Guida consegue trazer o expectador, em meio a boas risadas, à reflexão de quão ridículas são algumas de nossas preocupações – estavam certas nossas avós: mente vazia é oficina do diabo! – e quão perigoso é tirar a teoria do campo científico e fazer metaexistência, trazendo-a ao centro da própria vida.
Sobre "Match Point - Ponto Final", filme novo do Woody Allen!!! 26/02/2006
"Match Point" é maravilhoso!
Claro que isso soa meio suspeito vindo de Anita, fã incondicional de tudo o que o cinenasta produz e, portanto, afetada completamente pelo nome "Woody Allen", venha ele em créditos de filmes ou em caixas de sapato... (existe isso? "Sapatos Allen - com eles você caminha melhor em suas estradas inúteis!!!" ou "Sorvetes Allen - com algumas lambidas você percebe plenamente o frio e ausente de sentido da vida!!! ou por último "Camisinhas Allen - Diga adeus aos cigarros após o sexo! você sentirá em seu corpo a pulsação latente da veia fiosófica responsável pelo êxtase intelectual! Somos nós, garantindo mais uma vez a completude do seu bem-estar!!!")
Em todo caso, explico que o filme conta a história de um tenista intelectual(óide?) à procura de dar um sentido à sua existência, que não fosse apenas o esporte. Contando com o elemento "sorte" (e acreditando fervorosamente nele), o atleta percebe que os rumos de sua vida estão intimamente relacionados com sua vida amorosa - divida por duas mulheres.
A ironia, o acaso e as reflexões (úteis ou inúteis) são, como talvez não pudesse deixar de ser, os pilares de mais esta fita de Allen.
É conferir e "tragisentir"! (ou não...)
Bjs. Até a próxima.
Ps.: Quem viu, deixe seu comentário - só não vale contar o final...

Neste empolgante ensaio acerca da mente humana, o Dr. V. S. Ramachandran proporciona ao leitor o conhecimento de exóticos casos da clínica neurológica.
Através de uma escrita acessível e altas doses de humor, o autor se revela capaz de cumprir a tarefa quase impossível de direcionar ao público leigo, não-especializado, um texto que os leve ao entendimento das diversas teorias mente-cérebro existentes, sem dificuldades e de maneira, por vezes, bem cômica (a certa altura, os casos e teorias discutidos ganham predicados de autêntica hilariedade), embora sem deixar de dar ao assunto a seriedade que lhe é devida.
Não ficando apenas na teoria, o cientista busca ainda a comprovação prática de suas especulações e elabora, para isso, variadas experiências aplicadas em seus pacientes e descritas detalhadamente.
Iniciando sua dissertação com os casos dos indivíduos atormentados por seus “membros fantasmas”, Ramachandran vai discorrendo sobre as particularidades do funcionamento da mente dos pacientes (seus ou da literatura médica) que sofrem de algum tipo de transtorno cerebral, tentando apresentar possíveis razões e soluções para estes curiosos problemas, como, por exemplo, o dos sujeitos que têm o lado esquerdo do corpo paralisado e não o “percebem” (julgam fazer uso normal dos dois hemisférios corporais); os que ignoram o lado esquerdo de tudo (inclusive de seus próprios corpos, chegando ao extremo de pentear somente o lado direito da cabeça, ou maquilar somente o lado direito do rosto, ou ignorar toda a comida o lado esquerdo do prato etc.); os que possuem um ponto cego no campo visual muito maior do que o normal e enxergam seres/objetos preenchendo este espaço; os que (tendo visão aparentemente normal – e ponto cego normal!) vêem seres/objetos “a mais”, ou seja, que não estão disponíveis no “mundo real” – somente no seu próprio campo de visão (um homem “viu” um pequeno gorila sentado no colo do neurologista); os que são parcialmente cegos e têm excelentes reflexos (como se zumbis trabalhassem dentro deles), ou “enxergam” HQs – isso mesmo! – por toda a parte; e os paradoxalmente infelizes casos em que os pacientes literalmente morreram de rir; entre outros.
Considerando também as singularidades de atos normais como rir, chorar, ou das ditas “experiências místicas”, relacionadas ao sistema límbico (e exercendo sua sagacidade no que se refere aos inexplorados – ou quase! – campos da neurologia), o cientista faz paralelos com a teoria Darwiniana da evolução das espécies (apresentando o leitor à “psicologia da evolução”), salientando que, apesar das teorias sérias a esse respeito, algumas são “ridiculamente forçadas” (e nos brinda com um irônico artigo nomeado “Por que os cavalheiros preferem as louras?”, impagável menos por seu conteúdo do que por ter sido levado a sério pelos médicos que o avaliaram – e publicaram!).
Comentando os qualia, o Dr. Ramachandran questiona a essência do “eu”, expectador no universo, e inaugura, provavelmente, um olhar sobre as pequenas desordens mentais que ocorrem em todos os sujeitos, absolutamente “normais” sob quaisquer aspectos.
Riquíssimo, o livro desperta o interesse e prende a atenção do leitor do início ao fim, como se revelasse o cientista que há dentro de todos nós – questionador, curioso e disposto a encontrar as respostas para as próprias e perturbadoras indagações.
Sobre: RAMACHANDRAN, V. S. Fantasmas no cérebro: uma investigação dos mistérios da mente humana. V.S. Ramachandran, Sandra Blakeslee; tradução de Antônio Machado; prefácio, Oliver Sacks. – Rio de Janeiro: Record, 2002.

(um link útil: http://psy.ucsd.edu/chip/ramabio.html)


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