Ad Anita


17/07/2006


Hello. I want to play a game.

Um sujeito, no mínimo cinqüentão, descobre que morrerá em pouco tempo, em decorrência de um câncer. Quando sai da infeliz consulta oncológica, entra em seu carro (pintado de rosa-bebê) e respira profundamente. Todas as coisas simples do dia-a-dia, como beber um copo d’água, ingerir uma refeição, caminhar por um parque, retêm agora em si significados de proporções incomensuráveis. O sujeito sabe que sua morte está próxima; infelizmente, muito mais próxima do que ele gostaria.

Okay. Eu e você já assistimos a milhares de filmes com este tipo de enredo. O que fará o sujeito? Reconciliar-se com a família? Fazer as pazes com antigos e novos inimigos? Passar seus últimos dias recluso num templo budista? Adotar via conta bancária uma criança africana? Escrever um livro? Escrever dois? Sua biografia? Estudar filosofia? Aprender a tocar um instrumento musical? Revelar ao mundo que é gay? Plantar um jardim?

O que você faria?

Qualquer destas coisas, se o nosso sujeito as fizesse; ou quaisquer outras mais que ele inventasse para fazer talvez resultassem num bom filme, porém não resultariam em Jogos mortais 1 e 2. Nosso protagonista compromete-se a passar o período que lhe resta no planeta azul testando o tecido humano. Ele virou um cientista? Não. Um serial killer: Jigsaw, um carinha que obriga viciados, bandidos, assassinos etc a participarem de seus joguinhos super sem-graça. Claro que ele ainda consegue fazer uma discípula.




Taí a forma interessante como funciona a mente de um psicopata: quem pensa como eu, está salvo. Quem não pensa como eu, está condenado. O que me lembra bem os moldes maniqueístas religiosos: certo x errado, bem x mal; alguém detém a Verdade. O maluco do filme pensava que, sob o risco iminente da morte as pessoas liberariam o que há de mais verdadeiro, de mais básico em si mesmas – o instinto da sobrevivência, a qualquer custo. É diferente nas religiões? Aqui, quem determina o que é certo e o que é errado, é sempre uma “entidade espiritual”, que é o próprio poder e a própria verdade. Quem não concorda com seus desígnios é punido com a ameaça de passar a eternidade em um lugar de horror e torturas. Jigsaw diz que suas vítmas têm uma escolha: obedecer as regras e viver ou desobedecer as regras e morrer. As religiões apregoam exatamente a mesma coisa... Essa escolha ainda é, ousadamente, apelidada de “livre-arbítrio”. Livre-arbítrio? Alguém perguntou “do you want to play my game”?...

De volta ao foco, as películas são verdadeiras miscelâneas de Seven, O clube da luta (boas recordações de Brad Pitt) e Minha vida, com toda a maldade e ausência de misericórdia do antigo Testamento.

Ambientado num quintal de açougue, estrelado por atores semi-iniciantes e baseado em filosofia de bolso, só a surpreendente criatividade na elaboração das torturas é que traz algo de novo às fitas. Ui. Eca. Tomara que não venham mais continuações...

Escrito por Rosane Fernandes - Anita ) às 20h51
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Os reclames do plin-plin

Se existe uma coisa de que eu gosto na mídia, inusitadamente esta coisa é... comercial!

É isso aí: eu me amarro nas propagandas; televisivas, principalmente. Claro que, como raramente assisto TV, quando o faço não é pela expectativa de qualquer salsicha dançante. No entanto, durante os jogos do Brasil na Copa do Mundo, exibidos pela Globo com exclusividade (ou melhor, “monopólio”), eu finalmente lembrei de que possuo um aparelho televisor, tirei a poeira do botão power e deixei a geringonça funcionando. E alguns dos anúncios dos intervalos deram o show que foi esperado do quadrado mágico e que não veio.

Será que alguém mais percebeu (os comerciais, claro)?

Eis minha seleção de diletos e execráveis e seus por quês.

De saída, não gosto de comerciais protagonizados por competidores, apresentadores, modelos etc; artistas globais, em particular. Alguém já conferiu a dupla Cicarelli-Dunga anunciando um fabricante de carros? É, no mínimo, vexatória, a chamada que traz a ex-Fenômeno (com f maiúsculo mesmo: o Fenômeno era o Ronaldo. Era.) e o jogador (mais relegado ao ostracismo – espero! – após o mutismo despeitado que exibe ali, em cadeia nacional). A idéia é fazer elogios desmedidos, em um suposto programa de Cicarelli, ao competidor. Mas não, ela não está falando de Dunga: na verdade, está falando dos carros. Ok. Só que não tem elemento-surpresa: ninguém jamais atribuiria metade dos adjetivos enunciados pela moça a ele... Ah, eu nem precisava tentar explicar; o comercial é ridículo mesmo.

Aliás, em geral, propagandas estreladas por figurinhas conhecidas e pseudoconhecidas não têm idéia, comicidade ou reflexão; baseam-se apenas na fama ou pseudofama do sujeito que faz o apelo. Tanto é assim que não é qualquer desses profissionais que pode virar garoto-propaganda. Apenas aqueles que são tidos como muito conhecidos, muito carismáticos ou muito confiáveis, ou seja, aqueles que não vão “manchar” a imagem do produto ou serviço que estará associado à sua própria imagem.

Outro tipo de comerciais singularmente maçantes, são os que trazem clichês sexistas. 1: Uma moça desocupada, rolando numa grande cama de casal está se esforçando por narrar para o belo companheiro, ao celular, uma partida de futebol: “o da coxa bonita passou pro bonitão. O bonitão devolveu pro da coxa bonita. O da coxa bonita jogou pro cabeludo...”. O namorado, ocupadíssimo, ultracondescendente com a namorada cabeça-de-vento e, no mínimo bilíngüe, está entendendo tudo. Corta para a explicação do plano de minutos da VIVO (tem até gráficos, pra todos entenderem direitinho!!!) e volta para a fêmea-padrão-que-não-sabe-nada-de-futebol-que-é-um-esporte-pra-sujeito-macho, para que ela solte a pérola derradeira: “Ué, agora eles estão do outro lado do campo...” 2: Um garoto está arrumando, impaciente, sua mochila, enquanto sua mãe está tagarelando: “... Não esquece, hein, filho? Comporte-se lá na casa do seu pai – garfo na mão esquerda, faca na mão direita...” Corta para uma mão que prepara vagarosamente uma ave, enquanto uma voz anuncia que o tal caldo de galinha vai fazer do seu frango assado um momento mais do que especial (por favor, sem piadas infames). O frango está agora na mesa e o garoto está todo atrapalhado, tentando obedecer às recomendações da mãe. O pai, um cara legal, se penaliza e passa a comer com a mão. O garotinho segue o exemplo, todo contente. Na volta para casa, a mãe, uma neurótica incorrigível, estranha a mão engordurada do filho, que pisca para o pai, todo cúmplice. O pai é um sujeito gente nossa. Imagine se alguém diria que ele é um desleixado que não cuida da higiene do filho pequeno, deixando o moleque andar por aí com restos do almoço nas unhas...
Não dá.

Ruins também são os anúncios sobre a programação das próprias emissoras (estivemos falando de TV aberta) ou aqueles de divulgação de CDs, DVDs etc.

Porém nem tudo é desprezível no reino televisivo durante as pausas entre uma banalidade e outra: de algumas propagandas saem até mesmo boas discussões lingüísticas. Exemplo? A campanha dá-dá-dá da Pepsi. Afinal, o arremate do anúncio é quando alguém pede o refrigerante a outro alguém que nega, fazendo o característico ruído... ã-hã, ã-hã, ã-hã???? “Mas ã-hã não quer dizer sim? E ã-ã é que significa não”, observa um amigo meu. “Bem, há controvérsias...”, respondo, fingindo não notar seu olhar irônico de descrença. Ora eu precisava defender o esperado bom-senso dos marqueteiros contratados pelo fabricante da minha Twist do coração... Mas será que existe mesmo alguma controvérsia?

Há também os que ressuscitam antigos sucessos, como aquele em que vegetais frescos são exibidos ao som de “raindrops are falling on my head...” – o que pode acarretar juntamente a ressurreição de antigas pilhérias: “raindrops are falling on my dick...” (thanks, dear, for the correct forms in this sentences...)

E há aqueles que não se apóiam em nada que já tenha feito sucesso antes. Ainda bem. São só inteligentes. E bem menos custosos. 1: Um funcionário entra na sala particular de uma executiva para entregar-lhe alguns papéis. A mulher leva um susto daqueles e começa a berrar desesperadamente, aparentemente só cessando o escândalo muito depois que o rapaz já saiu de sua sala, aterrorizado, fechando a porta atrás de si. Todos no andar observam. Ninguém entendeu nada. Entra a voz do anunciante: use a nossa lingerie, que não tem costuras e não deixa marcas. Você vai esquecer que está usando roupas... 2: o comercial do recém-lançado Mini Club Social. Não dá pra explicar; tem que assistir. 3: Zeca Pagodinho, depois de umas brincadeiras com uma bola, Brahma em punho, gesticula uma mensagem de solidariedade à seleção brasileira – daqui a quatro anos a gente tenta de novo. Tá, até aí, normal. O cômico é o fato de que o comercial foi veiculado apenas poucas horas após a quadrada e mágica derrota parreirense na Copa. Não dava deixa-lo pronto e distribuir pelas emissoras em 2 ou três horas...

Agora, indiscutivelmente impagáveis são os multifacetados priceless da Master Card, largamente reproduzidos, desde a net até os botequins-ao-rés-do-chão. Todo mundo sabe de alguma coisa que não te preço. E que, pra todas as outras, existe Master Card...


Sacou? Comerciais podem ser um show de inteligência e bom-humor!... Qualidades que, aliás, resumem quase tudo o que se espera de uma boa companhia...

Escrito por Rosane Fernandes - Anita ) às 20h48
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Morte em vida

E alguém duvida que isso aconteça?

Estava conversando com um amigo, esta semana mesmo, que me dizia sentir saudades dos amigos de infância. Problema de simples solução: ligue, marque um encontro! O que o impedia? "Já estão todos mortos", respondeu-me. Oh... que coisa chata... Mas... Se ele não tem nem quarenta anos, como podia ser? Meu amigo estava sorridente e disse, todo emblemático: "Estão vivos, aí pelo mundo; mas já estão todos mortos".

O que meu amigo queria dizer com isso é que o tempo, que não pára, promove tantas mudanças às personalidades, alterando gostos, cheiros, medidas, gestos, timbres, sentimentos, que, quando você se dá conta, a pessoa que você conheceu, amou ou odiou por causa de um punhado de aspectos na essência do que ela era, essa pessoa já morreu. Pode estar de pé, tagarelando à sua frente, a roupagem mais ou menos correspondente à imagem mental que você fez daquele indivíduo, de algum modo relevante para a sua própria existência. Mas não passa disso: uma roupagem de que aquela essência já se revestiu. Isso pode acontecer com pessoas com quem você não tem contato há muito tempo, mas também com aquelas com as quais você se comunica todos os dias... Quando isso acontece, quem você amou, odiou, admirou ou perseguiu, simplesmente se extinguiu, só existe na sua lembrança.

Por quê? Porque o tempo não pára, porque o tempo muda tudo. Porque esta pessoa não era, para você, o que ela era, mas um somatório de características que vc considerou significativas, por alguma razão, e de você mesmo, naquele tempo; o conjunto que você representava para vc mesmo. Meu amigo também falou isso em seu desabafo franco: "Mas não era dos amigos, só, sabe? Era do que era a minha infância".

Então, quando o outro muda ou quando nós mesmos mudamos aquilo que é significativo, o equilíbrio se desfaz e alguém morre - nós ou o outro. Claro que sempre parecerá que foi o outro - é nosso defeito de fábrica, a excessiva autopreservação.

Quando alguém morre em vida - nós ou os outros -, pode deixar apenas lembranças ou ceder seu lugar a uma nova criatura - acontece, aí, um nascimento. Admitimos que o amigo ou amado está "diferente", e é acentuado em nós o sentimento que cultivávamos por ele. Porque, assim como ouvimos dizer: "você não é mais o mesmo" com tonacidade amarga ou decepcionada, podemos ouvir (e proferir) a mesma frase com a admiração feliz do inesperado. O resultado será, no primeiro caso, a ruptura, a quebra so equilíbrio, acompanhada do luto, da despedida - um fulano morreu. No segundo caso, será a mesma quebra, associada a profundo interesse - vc é mesmo fulano? a aparência me diz que sim, mas a essência me diz que não. Lembro de um conto, não recordo o autor (fico devendo, mas pago!), em que a personagem principal era um homem, que havia sido torturado durante a ditadura militar e lembrava perfeitamente quem era seu algoz. Anos mais tarde, muda-se para um condomínio residencial e justamente no seu vizinho, pai do melhor amiguinho de seu filho, ele reconhece o seu carrasco. No conto, ironicamente eles surpreendem-se um com o outro e tornam-se bons vizinhos, resolvendo deixar o que era passado para trás. Já em outro conto (esse eu lembro!), O inimigo, de Rubem Fonseca, o protagonista nos narra sua saudade dos tempos de infância. Vai atrás de seus melhores amigos, Ulpiniano-o-Meigo, Mangonga, Najuba, Félix e Roberto, apenas para descobrir que quase todos já são mortos-em-vida na sua história - apenas um deles não o é, e porque já está efetivamente morto... Assim ele conclui: "Que adiantava eu perguntar se ele se lembrava de uma coisa que ele queria esquecer? Quem queria lembrar-se era eu, que não queria construir nada de novo".

Sim, existe muita morte em vida. Quantas coisas morrem em nós mesmos! A cada empreendimento que não funcionou ou que foi vitorioso, morre e renasce um pouquinho de nós. Também a cada nova pessoa que conhecemos, a cada nova leitura que fazemos, a cada novo filme a que assistimos, a cada novo acontecimento com que lidamos... Com tantas pequenas mortes, com tantos novos nascimentos ocorrendo em nós mesmos todo o tempo, quem certamente afirmaria que já não morreu ou renasceu para alguém?

Um grande amigo pode morrer e deixar em seu lugar um estranho, um inimigo ou um irmão. Um inimigo pode morrer e emprestar sua matéria física a um novo grande amigo, a um novo amor, a um inimigo ainda mais impiedoso ou a alguém a quem somos completamente indiferentes...

Por que não estar atento aos acontecimentos presentes, ao invés de manter-se no passado ou no futuro, lembrando do que alguém ou você mesmo foi, ou projetando isso para o doravante? É melhor ater-se ao presente, em que - vamos apostar no melhor! - você pode estar prestes a perceber o surgimento de alguém muito especial, mesmo numa roupagem antiga...

Escrito por Rosane Fernandes - Anita ) às 20h47
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X-Man 3: A revolta de uma fã!!!

Sim, eu também sou fã dos X-Men. Não tanto dos quadrinhos (eu ainda não li todo o Nietzche, nem todo o Lacan, muito menos Dostoiévski; não dá pra desperdiçar meus olhos com mais este prazer fútil - se bem que eu leio mangás e a maioria dos prazeres são fúteis...), mas sou fã da animação, a que assistia sempre, quando mais jovem, na hora do almoço e a que assisto hoje em dia, já menos jovem, preparando o almoço... Fui conferir, empolgadíssima, cada um dos três filmes da série e, confesso, de longe o último é o que mais decepciona. De um modo geral - e para um desconhecedor da saga - o filme foi bem estruturado: trilha sonora, atores que já são rostinhos conhecidos - o que é um plus para atrair a geração-pipoca - (e embora alguns só sejam conhecidos graças ao primeiro X-Men), efeitos de alta qualidade... Mas, gente, eu não sou crítica de cinema (nunca sonhei com essa profissão, em criança) e percebi uma porção de incongruências... Principalmente quanto à caracterização das personagens: alguém aí já encontrou em alguma revistinha ou em algum episódio animado do grupo, uma Tempestade tão inssossa? Uma Vampira tão chorona e sem atitude? Um Scott Tão desequilibrado? Uma Fênix tão monótona e passiva? Um Xavier tão burro? Um Logan tão bem-humorado????

De onde saíram essas personalidades tão fracas e irritantes???? Me fazem imaginar que, ou os diretores basearam-se em algum HQ apócrifo ou em imagens caricaturais dos intérpretes dos nossos garotos-X... Ou talvez esta seja a infeliz história nunca contada - agora se sabe porque: é muito chata!!! - de como os patinhos feios medrosos, isentos de espírito de liderança e equipe, bobos e clichês conseguiram se transmutar - a verdadeira mutação! - nos cisnes chamados X-Men, dos quais somos fãs.

Tomara.

Só o Magneto era realmente o Magneto: determinado, focado, coerente e - tá! - sem escrúpulos. Mas, vilão?????

A própria idéia de Bem X Mal alavancada na fita é, no mínimo, ridícula. Na sessão em que estive, a galera aplaudiu e assoviou, animadíssima, quando o Magneto "teve o fim que merecia". Magneto era malvado???? Ah, vamos lá, pessoal! Não há espaço para mocinhos e bandidos nos X-Men; porque na dialética da trama original, todos tem seus motivos mais que justificados e compreensíveis para defenderem a posição que defendem, sem possibilidade de classificação entre "certo e errado": os humanos, medrosos impotentes que não tem coragem suficiente para declarar mas sim para maquinar o extermínio da raça mutante; a Irmandade de Magneto visando exclusivamente o bem-estar da galera do gene X; e os alunos do professor Charles Xavier, diplomatica e fisicamente tentando mediar um acordo de paz. Porém, em X-Men 3 só a causa do professor fica mal-apresentada e, portanto, incompreensível: ou a pessoa sai do cinema achando que os superdotados da mansão X são uns traidores sem-noção ou sai achando que são o máximo, porque são fãs e ponto final...

Pois é. Falar mal é muito fácil, mesmo. Ainda mais de uma fitinha tão ruim!!!

Vou parando por aqui. De repente, na semana que vem estréie alguma coisa legal...

Escrito por Rosane Fernandes - Anita ) às 20h45
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Barcas

Há quem não goste de usar as antiquíssimas barcas para atravessar a Baía de Guanabara. Os motivos são muitos: assentos de de madeira desconfortáveis, pintura descascada, chão gasto, paredes, privadas e pias dos banheiros marcados por fios de água amarelada pela ferrugem, baratas por todos os lados, além de o bebedouro, muitas vezes, ser utilizado mutíssimo mais como escarradeira... No entanto, não sei que ar nostálgico me envolve toda e me faz encantada do grande barco se arrastando ondulante... Neste momento dramático da minha existência em que meu próprio corpo (do qual tanto cuido, limpo, perfumo e enfeito) me fere, rompendo minhas gengivas no processo de nascimento dos quatro dentes cisos ao mesmo tempo (sim, estou me tornando adulta. Espero.), nestes trágicos instantes de agressividade inerente e initerrupta, o funcionário embarcado me toma pela mão e me auxilia a passar do "flutuante" para a proa. Assim como faziam os cavalheiros para tirarem para dançar as donzelas nos bailes dos séculos passados.Por um momento esqueço-me de que ele o faz com todas as mulheres, crianças e idosos - os históricamente mais frágeis - e, comovida, até olho-o nos olhos, lisonjeada. Para constatar que ele já me ignora e que me resta apenas sorrir e prosseguir para o interior... Encontro meu lugar aleatoriamente (não sou daqueles que já tem o "seu" lugar cativo até nos transportes coletivos - mas no cinema, sim!!!). Às vezes vou de pé, fora, sentindo o vento gelado no rosto, desgrenhando meus cabelos, e um frio na barriga, quando do sobe-e-desce mais elevado. A travessia nas barcas, vagarosa, me afasta do excesso, da velocidade intempestiva da informação e da deformação; das depreciações e hipocrisias que observo, com gosto amargo na boca... É um mundo à parte. Uma terapia sem comprimidos calmantes, copinhos descartáveis ou água - doce, pelo menos! Uma terapia que é difícil admitir o quanto é benéfica, da qual nomeio por tolices, debocho, pilherio e zombo, mas que está sempre, indiferentemente inconsciente e generosamente acessível a minhas noites solitárias, quando, após certificar-me de que ninguém me espia, relaxo, recostada e penso, toda plenitude, que é muito bom ver o oceano... que também é muito bom respirar, saborear o que se come, abraçar, cantar, dançar, tocar violão, gargalhar, viver. E que há uma coisa qualquer na minha essência que é só minha, não importa o que digam sobre a individualidade ou sua inexistência, não importa se eu não sou especial. Importa saber que eu vou escutar e seguir o tambor que toca nos meus ouvidos, mesmo que a minha música seja diferente das que escutam meus amigos e meus amados... Penso também, que sou humana e que essa consciência da minha humanidade significa aceitar as minhas limitações com bom humor, embora, às vezes, eu me deteste...

Daí a pouco toca o apito (ou a "taboca", como apelidaram os embarcados). Eu levanto do meu nirvana e sinto que muitos estavam na mesma entrega espiritual meditativa. Desço as escadas, invariavelmente observando as placas de "desça com atenção" que têm a ilustração de um bonequinho, comicamente levando um baita escorregão). Tomo um coletivo e vou para casa.

Escrito por Rosane Fernandes - Anita ) às 20h45
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Beauvoir & Allen

 

Sobre: "A mulher desiludida", de Simone de Beauvoir. Teatro UFF. Com Guida Vianna. 12/02/2006



Beauvoir por Guida



A personagem de Beauvoir beira os cinqüenta anos e vive só, sem absolutamente nada para fazer em plena comemoração de Ano Novo, a não ser rememorar sua própria história – e reclamar da vizinhança.

Ao ler as páginas da autora, é comum que os sentimentos dos leitores sejam sóbrios, quase melancólicos – embora haja sempre um leve toque irônico nas expressões da personagem –, já que a narrativa trata de alguém à beira de um ataque de nervos; incapaz de lidar com sua própria solidão, suas tragédias e com os rumos que sua vida tomou.

Na atuação de Guida, no entanto, o monólogo toma ares de pastelão. E, exposta dessa forma caricatural, a interpretação de Guida consegue trazer o expectador, em meio a boas risadas, à reflexão de quão ridículas são algumas de nossas preocupações – estavam certas nossas avós: mente vazia é oficina do diabo! – e quão perigoso é tirar a teoria do campo científico e fazer metaexistência, trazendo-a ao centro da própria vida.



Sobre "Match Point - Ponto Final", filme novo do Woody Allen!!! 26/02/2006



"Match Point" é maravilhoso!


Claro que isso soa meio suspeito vindo de Anita, fã incondicional de tudo o que o cinenasta produz e, portanto, afetada completamente pelo nome "Woody Allen", venha ele em créditos de filmes ou em caixas de sapato... (existe isso? "Sapatos Allen - com eles você caminha melhor em suas estradas inúteis!!!" ou "Sorvetes Allen - com algumas lambidas você percebe plenamente o frio e ausente de sentido da vida!!! ou por último "Camisinhas Allen - Diga adeus aos cigarros após o sexo! você sentirá em seu corpo a pulsação latente da veia fiosófica responsável pelo êxtase intelectual! Somos nós, garantindo mais uma vez a completude do seu bem-estar!!!")
Em todo caso, explico que o filme conta a história de um tenista intelectual(óide?) à procura de dar um sentido à sua existência, que não fosse apenas o esporte. Contando com o elemento "sorte" (e acreditando fervorosamente nele), o atleta percebe que os rumos de sua vida estão intimamente relacionados com sua vida amorosa - divida por duas mulheres.

A ironia, o acaso e as reflexões (úteis ou inúteis) são, como talvez não pudesse deixar de ser, os pilares de mais esta fita de Allen.

É conferir e "tragisentir"! (ou não...)

Bjs. Até a próxima.

Ps.: Quem viu, deixe seu comentário - só não vale contar o final...

Escrito por Rosane Fernandes - Anita ) às 20h42
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O cérebro de um jeito divertido e ao alcance de todos

Neste empolgante ensaio acerca da mente humana, o Dr. V. S. Ramachandran proporciona ao leitor o conhecimento de exóticos casos da clínica neurológica.

Através de uma escrita acessível e altas doses de humor, o autor se revela capaz de cumprir a tarefa quase impossível de direcionar ao público leigo, não-especializado, um texto que os leve ao entendimento das diversas teorias mente-cérebro existentes, sem dificuldades e de maneira, por vezes, bem cômica (a certa altura, os casos e teorias discutidos ganham predicados de autêntica hilariedade), embora sem deixar de dar ao assunto a seriedade que lhe é devida.

Não ficando apenas na teoria, o cientista busca ainda a comprovação prática de suas especulações e elabora, para isso, variadas experiências aplicadas em seus pacientes e descritas detalhadamente.

Iniciando sua dissertação com os casos dos indivíduos atormentados por seus “membros fantasmas”, Ramachandran vai discorrendo sobre as particularidades do funcionamento da mente dos pacientes (seus ou da literatura médica) que sofrem de algum tipo de transtorno cerebral, tentando apresentar possíveis razões e soluções para estes curiosos problemas, como, por exemplo, o dos sujeitos que têm o lado esquerdo do corpo paralisado e não o “percebem” (julgam fazer uso normal dos dois hemisférios corporais); os que ignoram o lado esquerdo de tudo (inclusive de seus próprios corpos, chegando ao extremo de pentear somente o lado direito da cabeça, ou maquilar somente o lado direito do rosto, ou ignorar toda a comida o lado esquerdo do prato etc.); os que possuem um ponto cego no campo visual muito maior do que o normal e enxergam seres/objetos preenchendo este espaço; os que (tendo visão aparentemente normal – e ponto cego normal!) vêem seres/objetos “a mais”, ou seja, que não estão disponíveis no “mundo real” – somente no seu próprio campo de visão (um homem “viu” um pequeno gorila sentado no colo do neurologista); os que são parcialmente cegos e têm excelentes reflexos (como se zumbis trabalhassem dentro deles), ou “enxergam” HQs – isso mesmo! – por toda a parte; e os paradoxalmente infelizes casos em que os pacientes literalmente morreram de rir; entre outros.

Considerando também as singularidades de atos normais como rir, chorar, ou das ditas “experiências místicas”, relacionadas ao sistema límbico (e exercendo sua sagacidade no que se refere aos inexplorados – ou quase! – campos da neurologia), o cientista faz paralelos com a teoria Darwiniana da evolução das espécies (apresentando o leitor à “psicologia da evolução”), salientando que, apesar das teorias sérias a esse respeito, algumas são “ridiculamente forçadas” (e nos brinda com um irônico artigo nomeado “Por que os cavalheiros preferem as louras?”, impagável menos por seu conteúdo do que por ter sido levado a sério pelos médicos que o avaliaram – e publicaram!).

Comentando os qualia, o Dr. Ramachandran questiona a essência do “eu”, expectador no universo, e inaugura, provavelmente, um olhar sobre as pequenas desordens mentais que ocorrem em todos os sujeitos, absolutamente “normais” sob quaisquer aspectos.

Riquíssimo, o livro desperta o interesse e prende a atenção do leitor do início ao fim, como se revelasse o cientista que há dentro de todos nós – questionador, curioso e disposto a encontrar as respostas para as próprias e perturbadoras indagações.


Sobre: RAMACHANDRAN, V. S. Fantasmas no cérebro: uma investigação dos mistérios da mente humana. V.S. Ramachandran, Sandra Blakeslee; tradução de Antônio Machado; prefácio, Oliver Sacks. – Rio de Janeiro: Record, 2002.



(um link útil: http://psy.ucsd.edu/chip/ramabio.html)

Escrito por Rosane Fernandes - Anita ) às 20h39
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