Se existe uma coisa de que eu gosto na mídia, inusitadamente esta coisa é... comercial!
É isso aí: eu me amarro nas propagandas; televisivas, principalmente. Claro que, como raramente assisto TV, quando o faço não é pela expectativa de qualquer salsicha dançante. No entanto, durante os jogos do Brasil na Copa do Mundo, exibidos pela Globo com exclusividade (ou melhor, “monopólio”), eu finalmente lembrei de que possuo um aparelho televisor, tirei a poeira do botão power e deixei a geringonça funcionando. E alguns dos anúncios dos intervalos deram o show que foi esperado do quadrado mágico e que não veio.
Será que alguém mais percebeu (os comerciais, claro)?
Eis minha seleção de diletos e execráveis e seus por quês.
De saída, não gosto de comerciais protagonizados por competidores, apresentadores, modelos etc; artistas globais, em particular. Alguém já conferiu a dupla Cicarelli-Dunga anunciando um fabricante de carros? É, no mínimo, vexatória, a chamada que traz a ex-Fenômeno (com f maiúsculo mesmo: o Fenômeno era o Ronaldo. Era.) e o jogador (mais relegado ao ostracismo – espero! – após o mutismo despeitado que exibe ali, em cadeia nacional). A idéia é fazer elogios desmedidos, em um suposto programa de Cicarelli, ao competidor. Mas não, ela não está falando de Dunga: na verdade, está falando dos carros. Ok. Só que não tem elemento-surpresa: ninguém jamais atribuiria metade dos adjetivos enunciados pela moça a ele... Ah, eu nem precisava tentar explicar; o comercial é ridículo mesmo.
Aliás, em geral, propagandas estreladas por figurinhas conhecidas e pseudoconhecidas não têm idéia, comicidade ou reflexão; baseam-se apenas na fama ou pseudofama do sujeito que faz o apelo. Tanto é assim que não é qualquer desses profissionais que pode virar garoto-propaganda. Apenas aqueles que são tidos como muito conhecidos, muito carismáticos ou muito confiáveis, ou seja, aqueles que não vão “manchar” a imagem do produto ou serviço que estará associado à sua própria imagem.
Outro tipo de comerciais singularmente maçantes, são os que trazem clichês sexistas. 1: Uma moça desocupada, rolando numa grande cama de casal está se esforçando por narrar para o belo companheiro, ao celular, uma partida de futebol: “o da coxa bonita passou pro bonitão. O bonitão devolveu pro da coxa bonita. O da coxa bonita jogou pro cabeludo...”. O namorado, ocupadíssimo, ultracondescendente com a namorada cabeça-de-vento e, no mínimo bilíngüe, está entendendo tudo. Corta para a explicação do plano de minutos da VIVO (tem até gráficos, pra todos entenderem direitinho!!!) e volta para a fêmea-padrão-que-não-sabe-nada-de-futebol-que-é-um-esporte-pra-sujeito-macho, para que ela solte a pérola derradeira: “Ué, agora eles estão do outro lado do campo...” 2: Um garoto está arrumando, impaciente, sua mochila, enquanto sua mãe está tagarelando: “... Não esquece, hein, filho? Comporte-se lá na casa do seu pai – garfo na mão esquerda, faca na mão direita...” Corta para uma mão que prepara vagarosamente uma ave, enquanto uma voz anuncia que o tal caldo de galinha vai fazer do seu frango assado um momento mais do que especial (por favor, sem piadas infames). O frango está agora na mesa e o garoto está todo atrapalhado, tentando obedecer às recomendações da mãe. O pai, um cara legal, se penaliza e passa a comer com a mão. O garotinho segue o exemplo, todo contente. Na volta para casa, a mãe, uma neurótica incorrigível, estranha a mão engordurada do filho, que pisca para o pai, todo cúmplice. O pai é um sujeito gente nossa. Imagine se alguém diria que ele é um desleixado que não cuida da higiene do filho pequeno, deixando o moleque andar por aí com restos do almoço nas unhas...
Não dá.
Ruins também são os anúncios sobre a programação das próprias emissoras (estivemos falando de TV aberta) ou aqueles de divulgação de CDs, DVDs etc.
Porém nem tudo é desprezível no reino televisivo durante as pausas entre uma banalidade e outra: de algumas propagandas saem até mesmo boas discussões lingüísticas. Exemplo? A campanha dá-dá-dá da Pepsi. Afinal, o arremate do anúncio é quando alguém pede o refrigerante a outro alguém que nega, fazendo o característico ruído... ã-hã, ã-hã, ã-hã???? “Mas ã-hã não quer dizer sim? E ã-ã é que significa não”, observa um amigo meu. “Bem, há controvérsias...”, respondo, fingindo não notar seu olhar irônico de descrença. Ora eu precisava defender o esperado bom-senso dos marqueteiros contratados pelo fabricante da minha Twist do coração... Mas será que existe mesmo alguma controvérsia?
Há também os que ressuscitam antigos sucessos, como aquele em que vegetais frescos são exibidos ao som de “raindrops are falling on my head...” – o que pode acarretar juntamente a ressurreição de antigas pilhérias: “raindrops are falling on my dick...” (thanks, dear, for the correct forms in this sentences...)
E há aqueles que não se apóiam em nada que já tenha feito sucesso antes. Ainda bem. São só inteligentes. E bem menos custosos. 1: Um funcionário entra na sala particular de uma executiva para entregar-lhe alguns papéis. A mulher leva um susto daqueles e começa a berrar desesperadamente, aparentemente só cessando o escândalo muito depois que o rapaz já saiu de sua sala, aterrorizado, fechando a porta atrás de si. Todos no andar observam. Ninguém entendeu nada. Entra a voz do anunciante: use a nossa lingerie, que não tem costuras e não deixa marcas. Você vai esquecer que está usando roupas... 2: o comercial do recém-lançado Mini Club Social. Não dá pra explicar; tem que assistir. 3: Zeca Pagodinho, depois de umas brincadeiras com uma bola, Brahma em punho, gesticula uma mensagem de solidariedade à seleção brasileira – daqui a quatro anos a gente tenta de novo. Tá, até aí, normal. O cômico é o fato de que o comercial foi veiculado apenas poucas horas após a quadrada e mágica derrota parreirense na Copa. Não dava deixa-lo pronto e distribuir pelas emissoras em 2 ou três horas...
Agora, indiscutivelmente impagáveis são os multifacetados priceless da Master Card, largamente reproduzidos, desde a net até os botequins-ao-rés-do-chão. Todo mundo sabe de alguma coisa que não te preço. E que, pra todas as outras, existe Master Card...

Sacou? Comerciais podem ser um show de inteligência e bom-humor!... Qualidades que, aliás, resumem quase tudo o que se espera de uma boa companhia...