Ad Anita


29/07/2006


Match Point - Moral da história...

 Um sábado chuvoso no interior do Rio me trouxe novamente Match Point. E, como Woody Allen sempre me foi irresistível, lá fui eu, pipoca em punho, rever o que a contracapa do DVD descrevia como "um thriller intenso e cheio de suspense sobre ambição, a sedução da riqueza, sexo, crime - e o mais importante: o enorme papel que a sorte tem em nossas vidas"... Raramente essas sinopses conseguem acertar o tom do filme. Com esta não foi diferente, porque a temática é sobre tudo isso, mas também é sobre muito mais; é sobre o que fica implícito; é sobre o que eu ou você faríamos. É sobre a moral

   Chris está dividido entre sua mulher - bonitinha, inteligentíssima, divertida e endinheirada - e sua amante - lindíssima, sexy, pobre, grávida e ameaçando contar sobre o caso de ambos à primeira - e, mais apaixonado pela boa vida que leva do que por sua voluptuosa aventura extra-conjugal, decide, como medida desesperada, matá-la.

 

  

  

   Chris não é um cara legal. É um alpinista social inescrupuloso e aproveitador, sem respeito pelos sentimentos, necessidades ou a própria vida dos outros; a tal criaturinha egoísta que Tomas Hobbes acredita ser o homem em seu estado natural. Tal como o Giges platônico, Chris acredita que faz o que faz porque é o que precisa ser feito para atingir seus objetivos que, no fim das contas, são as únicas coisas que realmente importam; o outro, como sua milionária esposa Chloe, é apenas um meio para o sucesso. Por isso ele tenta se dar bem com as pessoas que podem ajudá-lo (os sogros, a esposa, os cunhados), se manter longe de problemas (não tinha nenhum antecedente criminal, nem mesmo multas por excesso de velocidade). E quando algo realmente ameaça tirar a sua paz de espírito (ou melhor, os dólares de sua conta bancária), encontra um meio de eliminá-lo. Quando se justifica com Nola, num sonho mirabolante, diz: "Foi difícil, mas quando chegou a hora, eu apertei o gatilho", o que equilvale a dizer "sinto muito, mas o meu vem em primeiro lugar".

   Ele não acredita em Deus, do contrário, nem teria começado a se relacionar com a ex-cunhada gostosa, afinal, em Sua ira, o Todo-poderoso o lançaria sem escalas direto no colo do capeta.

   Segundo a teoria do contrato social, o homem é "o lobo do homem", ou seja, estamos o tempo todo inseridos numa batalha de um contra todos e, se agimos cordialmente é porque temos medo das sanções ou porque, de algum modo, contamos com a utilidade do outro para concretizar nossos ideais. Chris encarna essa idéia com perfeição. Nola está fora do escopo de sua moralidade quando já não é mais útil, mas um problema; quando matá-la, através de um plano bem-arquitetado, não lhe trará punições. E com a morte de Nola, não há mais traição, não há mais filho ilegítimo, nem prejuízos financeiros. A teoria do contrato social não fornece uma justificativa e sim um cálculo do que é mais lucrativo e prudente a se fazer. 

   Chris não é um canalha para a esposa e seus parentes. Nem para a teoria do contrato social. Mas o é para nós. Por quê? Segundo a teoria do contrato social, Nola não é mais útil e nem uma ameaça e, por isso, Chris não teria obrigações morais para com ela. Mesmo assim, nós não a queríamos morta (os homens, por motivos óbvios!) e o detestamos por matá-la.

   Então podemos pensar que a resposta está em Kant: ele deveria ser um cara mais razoável porque, caso contrário, estaria sendo inconsistente. Kant é categórico: devemos agir de acordo com a máxima tal que as atitudes sejam de aplicação universal. Fora disso, tudo é imoral. Se todo mundo saísse por aí mentindo, então a palavra de ninguém teria valor; se todos fossem caloteiros, então ninguém mais emprestaria e assim por diante. Mas há uma falha aí. Se eu dissesse a Crhis: "Ei, você não deveria agir assim porque você está sendo inconsistente. Se todo mundo saísse por aí matando ex-amantes, ninguém mais manteria relacionamentos e a espécie humana se extinguiria! Tenha juízo e resolva as coisas do jeito certo!", então ele talvez me respondesse: "Okay. De um modo geral as pessoas não devem sair por aí fazendo isso. Mas qual é o problema se só eu me resolver a fazê-lo?". Novamente, estamos sem resposta. Como explicar a Chris por que ele deveria ser moral?

   Uma possível saída seria argumentar que alguns de nós temos sentimentos, como amor, carinho, compaixão etc.; que alguns de nós simplesmente não reduzem os princípios de suas atitudes ao utilitarismo. Mas isso não é uma justificativa, é uma explicação causal; como se alguém perguntasse a Chris: "Como você pôde fazer isso à Nola???" e ele respondesse: "Bem, primeiro eu roubei uma espingarda de caça, depois liguei para ela, matei sua vizinha para confundir a perícia e por fim atirei nela". Chris estaria dando uma resposta causal, quando na verdade o que você queria era uma justificativa para que ele conseguisse prosseguir com plano tão cruel.

   Talvez a resposta esteja na cultura. Aristóteles apregoava que a sociedade precede o indivíduo e, com ela, virtudes como justiça, moral etc., nas quais o sujeito é doutrinado desde o seu nascimento.  

   Penso que as razões para ser moral, o porquê de agir desta ou daquela forma, é uma interrogação à qual não se pode responder. Não é por isso uma questão irracional. É apenas arracional, que não se pode racionalizar.

   Nietzche disse, certa vez: "Torne-se aquilo que você é", o que você exige de você mesmo não em função do olhar ou da punição do outro, mas de certa noção de bem e mal, do admissível e do inadmissível, da humanidade que há em você mesmo. Enfim, da noção de você em você mesmo. E, seguindo este raciocínio, o julgamento do outro também não interessa. Chris pode me virar as costas e praticar um eventual assassinato. Um amigo pode me "dar uma volta" num empréstimo ou me pagar centavo a centavo, superagradecido; um namorado pode me "dar uma pernada" num fim-de-semana na Bahia ou estremecer de saudades da minha voz e beijos; e eu posso acabar grávida e morta pelas mãos de uma canalha inconfesso ou mãe feliz de sete filhos de um pai maravilhoso.

   Não há resposta para a questão fundamental da moralidade: "Por que ser moral?". E também não dá pra fazer julgamentos. Chris se deu bem, sem punições, com uma bela família e muita grana no bolso. Nola se deu mal, bela, jovem, grávida e extinta. E tudo foi apenas uma questão de tornar-se aquilo que você realmente é.

Escrito por Rosane Fernandes às 22h01
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