Atenção: republicação. Original: 17/07/06 - 21h49min
Na última noite de domingo, depois da humilhante derrota do Brasil para a França, eu tive a feliz lembrança de assistir ao documentário "The root of all the evil?", do biólogo inglês Richard Dawkins. Eu não faço parte de torcida de futebol nem mesmo para o Brasil e durante a Copa do Mundo, no entanto até eu queria que o quadrado mágico tivesse dado um show. Não deu. Apesar disso, a seleção não voltou pra casa, literalmente (apenas dois dos vinte e três convocados jogam em solo pátrio. E de repente abocanharam já algum contrato lá fora). E eu não fui ao cinema, menos por uma questão de solidariedade que por preguiça... Aí entra o Dawkins.

O documentário trata do pensamento religioso e sua surpreendente influência nas sociedades da atualidade. Na fita, o biólogo exprime sua perplexidade ante toda a comoção, em pleno século XXI, em torno das devoções religiosas, às quais é conferido o status de verdade indiscutível em pelo menos três principais grandes vertentes teocêntricas: o cristianismo (catolicismo ou protestantismo), judaísmo e islamismo.
O objetivo de Richard Dawkins é refutar uma corrente de pensamento que vem ganhando força e sendo amplamente disseminada nos colégios americanos; um criacionismo disfarçado que afirma ser Deus o autor de todo o esquema evolucionista, e que Ele idealizou este esquema tendo o homem como objetivo último, sua criação mais perfeita. Isso contradiz a seleção natural darwiniana, em cuja tese, somente o mais apto de uma determinada espécie, o mais adaptável às freqüentes variações do meio, sobrevive; chegando assim à variedade de espécies existentes hoje.
Professor da Universidade de Oxford, o cientista visitou diversos lugares: igrejas, escolas religiosas, o muro das lamentações... E conversou com variados indivíduos sobre sua profissão de fé. E fé, para Dawkins, é como um vírus que precisa ser urgentemente exterminado. O motivo? Ela seria possivelmente a raiz dos maiores males do convívio em sociedade (na versão protestante da Bíblia Sagrada, o amor ao dinheiro é que é descrito como a raiz de todos os males;1ª Timóteo 6.10. Um trocadilho?). Isso porque todas as organizações religiosas trazem consigo, sem excessções, o seu modus vivendi, um conjunto de regras com seu "pode-não pode", sua própria moral, regida por seu Deus; sua própria Verdade - com D e V maiúsculos.
Nos muitos locais visitados por Dawkins, o cientista falou com diversos representantes destas facções a respeito de suas convicções e procedimentos.
O que parece espantar o estudioso é o fato de que, mais do que acreditar - e 75% da população americana acredita - no Criacionismo, as escolas têm em sua grade curricular horário mais do que suficiente para ensiná-lo aos pequenos. Isso em se tratando de escolas freqüentadas por todos. O mais preocupante para o biólogo são os colégios católicos, batistas, judeus, islâmicos etc; nos quais a educação da criança é baseada exclusivamente nas crendices, inculcando-as irreversivelmente em seus cérebros, tão suscetíveis nos primeiros anos de sua formação (novamente na Bíblia: "ensina o teu filho no caminho em que deve andar e até quando crescer não se desviará dele"; Provérbios 22.6).
Fazendo um paralelo, o psicólogo Wayne Dyer afirma, em seu best-seller Seus pontos fracos, a respeito da pessoa cuja moral está ligada a uma instituição religiosa: "...comporta-se de acordo com a moral não porque acredita que esse é o comportamento que lhe é apropriado, mas porque Deus quer que ele assim se comporte. Se estiver em dúvida, consulte os mandamentos, em vez de consultar a si próprio e aquilo em que acredita. Comporte-se bem porque alguém lhe disse para fazer assim e porque será punido se não o fizer, não porque sabe que esse é o comportamento adequado para você..."
E estes religiosos estão em busca da recompensa em outra vida. Seu objetivo é não cair na danação eterna, não importa o que isso vá custar enquanto estiver vivo. Será uma honra se, inclusive, custar-lhe a prápria vida.
O pastor e idealizador da peça Hell House, na fita, diz, sobre ela: "o inferno tem que ser retratado como o lugar para onde você absolutamente não quer ir".
Uma psicóloga, professora universitária, instada por Dawkins a falar o que sabe sobre o inferno, emociona-se: "É um lugar para os rejeitados por Deus". E prossegue afirmando que aterrorizar crianças com esse tipo de coerção diabólica, para conseguir que tenham um determinado comportamento, é um abuso infantil.
Questionando quase todos os seus interlocutores a respeito do Evolucionismo, Dawkins ora é praticamente expulso por eles, ora recebe curiosas respostas, do tipo: "não estamos interessados nessas questõezinhas acadêmicas. Acreditamos e pronto."
Nos colégios judeus e islâmicos as crianças são separadas do restante do mundo. Vivem em suas comunidades, brincando somente com crianças destas comunidades, sendo ensinadas nas escolas destas comunidades, indo aos eventos destas comunidades, sem televisão ou sabe-se lá mais o quê...
Acreditam que Deus criou o universo, há 6000 anos. Acreditam que Deus inspirou profetas com seu Espírito Santo para escrever seus respectivos livros sagrados: o Alcorão, a Torá e a Bíblia Sagrada. Acreditam na arca de Noé. Acreditam que Deus enviou ou enviará um messias. Acreditam em céu. Acreditam em inferno.
Para Dawkins, Deus, duendes, fadas e cogumelos invisíveis intergalácticos nos observando tem a mesma e nula influência e aplicabilidade no mundo real: não se pode provar que não existem, mas nem por isso se deve acreditar que são responsáveis pelo que acontece por aqui. Tampouco poderia ser real a história do dilúvio, já que é impossível chover 7000 metros de água por dia, durante qurenta dias e, pelas medidas da arca, adaptadas à métrica atual, a manutenção de todas as espécies que temos hoje, somados à família de Noé e aos alimentos para manter todos vivos, dentro da minúscula embarcação. O mesmo absurdo seria crer na existência do inferno: equivale a dizer que em alguma parte do núcleo da massa terrestre o Mickey Mouse está armado com um enorme e fumegante tridente esperando os rejeitados de Deus para o tormento eterno. Dawkins acredita em fatos. E como tal, tenta apresentá-la aos seus ouvintes.
Analisando trechos do Antigo Testamento da Bíblia Sagrada, por exemplo, um em que o sujeito era autorizado a matar outro que lhe convidasse a adorar outro Deus, Dawkins chega a afirmar que "Deus é a personagem mais desagradável de toda a história da ficção".
Estruturando suas visitas do pólo religioso mais tranqüilo ao extremo mais ortodoxo e perigoso, Dawkins passa por sujeitos que defendem a pena de morte para os homossexuais, atentados a clínicas de aborto (em Estados em que a prática é legalizada), até chegar em um americano recém-convertido ao islamismo, que afirmou para as câmeras que os não-muçulmanos vestem suas mulheres como prostitutas, fornicam pelas ruas etc., e que não somente tinha certeza de que ele e seus companheiros podiam mudar o mundo como iriam fazê-lo.
(link para o site: http://www.simonyi.ox.ac.uk/dawkins/WorldOfDawkins-archive/index.shtml)




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