Ad Anita


27/11/2006


27 de novembro, à toa no IFCS

"...É simples desse jeito quando se encolhe o peito e finge não haver competição/ é a solução de quem não quer perder aquilo que já tem e fecha a mão pro que há de vir..."

   Não faço a menor idéia de quem é o autor dessa letra ou de quem é o grupo que a canta (e nem tenho curiosidade, o que uma rápida busca no Google resolveria), mas o bendito refrão me perseguiu o dia todo, a musiquinha, mentalmente me embalando durante o trajeto engarrafado de São Gonçalo até o Rio; durante a prova de História da Filosofia; durante o meu almoço; e até agora. Meu horóscopo sempre diz que gente do meu signo não acredita em misticismos e, como boa representante, não acredito mesmo; contudo, se algo martela, insiste, talvez seja bom conceder-lhe um pouquinho de atenção (afinal, já estava roubando minha concentração mesmo...).

   Pra quem curte uma psicologia de auto-ajuda de bolso, as frases da tal musiquinha concordam em cheio com o Wayne Dyer. Pra quem nunca ouviu falar dele, é um psicólogo americano que amalheou certa fama ao publicar o best-seller "Seus pontos fracos", em quem enumera os principais sentimentos, atitudes, idéias que podem ser nocivas à nossa auto-imagem, ao nosso amor-próprio e consequentemente à nossa felicidade (auto-ajuda mesmo).  O Dr. Dyer sempre diz que o medo do futuro, do que há de vir, de experenciar o novo é um dos grandes impedimentos à nossa plena vivência. É coerente: todo o esforço da sociedade ocidental, atualmente, não está voltado para uma espécie de segurança? Carro (assegurar o transporte para o lazer e as emergências médicas, por exemplo), casa (assegurar o abrigo quanto às intempéries climáticas, a segurança quanto aos malfeitores, um lugar próprio para receber quem lhe convir etc.), dinheiro (assegurar capital suficiente para suprir quaisquer necessidades aplicáveis a ele: alimento, saúde, moradia, vestimenta, lazer etc)... Estes são, em geral, os elementos aos quais aspiram a classe trabalhadora e dos quais não desejam ser destituídos os mais abastados. A posse destes bens é o próprio valor atrbuído a uma pessoa. Na sociedade brasileira, é inegável a força do preconceito social, sendo este ainda mais intensamente observável que o preconceito racial. Isso é verificável mesmo na língua que falamos. Por exemplo, muitas pessoas não sabem que construções lingüísticas como "dereito", "frecha", "despois", "frito", "premeiramente", hoje consideradas incorretas, são encontradas na carta de Pero Vaz de Caminha, de 1500. Com a língua, o que acontece é que existe uma variante que é mais prestigiada e, coincidentemente, ela é quase sempre a variante da classe social mais alta. Quem tem mais bens, mais status, diacronicamente tem tido também a preponderância lingüística. Logo, nada mais comum que associar a felicidade à posse de bens, que é o mesmo que associá-la à segurança, e também o mesmo que associar o valor de alguém à segurança que ela possa proporcionar para si e eventualmente para quem interessar possa. Daí o medo do que há de vir, de perder essa segurança.

   Isso acontece também no plano pessoal, tão comumente traduzido na palavra "insegurança" que, assim tão repetida, parece esvaziar-se um pouco de toda a carga de sentido que efetivamente encerra em si mesma. Ser inseguro é ser também e em significativa medida, produto de uma soma de fatores externos (embora eu particularmente acredite na propensão genética de alguns seres humanos quanto ao desenvolvimento de certas patologias psicológicas). É ter medo, e, tanto filósofos da Antiguidade, como aristóteles, quanto psicólogos PhDs da contemporaneidade concordam que o sentimento de medo é absolutamente normal: mais que isso, é um comportamento biológico de auto-preservação (segurança). Essa busca muitas vezes inconsciente e desesperada por segurança de fato é determinada por fatores biológicos e culturais que são sinalizados clara ou subliminarmente para nós todo o tempo.

Escrito por Rosane Fernandes às 15h15
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27 de novembro, à toa no IFCS (continuação)

   Por que haveríamos de lutar contra ela? Se é em certa medida, biológica, como e por que lutar contra nossos genes? Se é cultural, como e por que lutar contra aquilo de que, em verdade, desejamos loucamente fazer parte? Não parece fazer sentido uma crítica quanto a ser aquilo que estamos determinados a ser, de tantos modos.

   Por alguma razão, talvez por tê-lo lido recentemente, lembrei da Ética a Nicômaco e seu esforço em definir, sistematizar, classificar, nomear, enumerar logicamente quais as atitudes, as normas a serem seguidas por um indivíduo qualquer que deseje alcançar a felicidade. Na Ética, a felicidade (o sumo bem) é justamente aquilo por que todos os homens estão buscando. Não se confunde com a riqueza porque a riqueza é apenas um meio para conquistá-la; não se confunde com as honras (o status) porque conferir honra a alguém é mais honroso do que recebê-la (e também porque, no fim das contas, se está contando com o reconhecimento das outras pessoas: "viu só como sou honrado?". E se as outras pessoas não reconhecerem essa honra porque todos no mundo enlouqueceram repentinamente? Então não se será mais feliz?); não se confunde também com os prazeres porque todos eles são passageiros e a vida, então, resumiria-se a uma constante busca por mais e mais prazeres que sempre tornariam a passar e serem novamente buscados, num ciclo interminável... Na Ética, a felicidade é o exercício das virtudes sobre si mesmo e sobre o próximo. A verdadeira felicidade. Os bens não são dispensáveis, como foi dito: apenas são considerados tão somente um meio.

   Lembrei também do Fight Club, e sua filosofia de "você não é quanto você ganha", "não é o carro que você dirige", "não é o seu câncer de próstata", "não é sua conta bancária", "não é o seu cunhado". Lembrei também de Berkeley: "Esse est percipi" ("ser é ser percebido").

   A verdade é que, como a respeito de qualquer outro questionamento, não encontrei ainda a resposta para a pergunta sobre o que é ser e o que é ser feliz nem na Psicologia, nem na Filosofia, nem na Música (não quis dizer que qualquer delas tenha se proposto a responder) e muito menos na poesia ("A felicidade é um bem que almejamos mas nunca conquistamos porque está sempre onde a pomos e nunca a pomos onde nós estamos" - de quem era mesmo essa poesia?... Alguém verifica no Google pra mim?).

   O fato é que a música que deu início à minha salada textual, de algum modo, me comoveu. Não sei dizer o porquê, mas, se isso importa, deve ser porque ainda existe algo de idealista em mim - como em muitas outras pessoas - que busca, ainda mais desesperadamente do que busca a supracitada segurança, a libertação de comportamentos determinados e/ou reducionistas: afinal, como ser humano e, portanto, racional, não posso (no sentido de "não me permito") abandonar-me à mercê de comportamentos puramente biológicos (puxa! é justamente a capacidade de raciocinar que nos separa do restante da alimária existente na Terra - e também o que salva a teoria cartesiana do ceticismo...), e também não posso aceitar sem contestar aquilo que outro ser humano tenha determinado para mim, não importa de qual modo, antes mesmo de eu nascer... Idealisticamente eu quero ter algum controle, quero questionar e entender e quero ser corajosa (no sentido aristotélico).

   Provavelmente a música me comoveu porque eu também tenho medo. Não tanto de perder o que já tenho (embora eu dê muito valor para o que é meu), mas de perceber pessoas que amo perdendo a si mesmas para essa insegurança, que se mostra de tantas formas que às vezes nem se mostra. Que às vezes deturpa tanto a visão dos homens, que além de mentir a eles sobre si mesmos, o faz também sobre as outras pessoas. Que às vezes entristece tanto que desacredita, que ceticismifica. Que faz com que aquilo que deveria ser, torne-se algo que apenas poderia ter sido.

Escrito por Rosane Fernandes às 15h14
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