"...É simples desse jeito quando se encolhe o peito e finge não haver competição/ é a solução de quem não quer perder aquilo que já tem e fecha a mão pro que há de vir..."
Não faço a menor idéia de quem é o autor dessa letra ou de quem é o grupo que a canta (e nem tenho curiosidade, o que uma rápida busca no Google resolveria), mas o bendito refrão me perseguiu o dia todo, a musiquinha, mentalmente me embalando durante o trajeto engarrafado de São Gonçalo até o Rio; durante a prova de História da Filosofia; durante o meu almoço; e até agora. Meu horóscopo sempre diz que gente do meu signo não acredita em misticismos e, como boa representante, não acredito mesmo; contudo, se algo martela, insiste, talvez seja bom conceder-lhe um pouquinho de atenção (afinal, já estava roubando minha concentração mesmo...).
Pra quem curte uma psicologia de auto-ajuda de bolso, as frases da tal musiquinha concordam em cheio com o Wayne Dyer. Pra quem nunca ouviu falar dele, é um psicólogo americano que amalheou certa fama ao publicar o best-seller "Seus pontos fracos", em quem enumera os principais sentimentos, atitudes, idéias que podem ser nocivas à nossa auto-imagem, ao nosso amor-próprio e consequentemente à nossa felicidade (auto-ajuda mesmo). O Dr. Dyer sempre diz que o medo do futuro, do que há de vir, de experenciar o novo é um dos grandes impedimentos à nossa plena vivência. É coerente: todo o esforço da sociedade ocidental, atualmente, não está voltado para uma espécie de segurança? Carro (assegurar o transporte para o lazer e as emergências médicas, por exemplo), casa (assegurar o abrigo quanto às intempéries climáticas, a segurança quanto aos malfeitores, um lugar próprio para receber quem lhe convir etc.), dinheiro (assegurar capital suficiente para suprir quaisquer necessidades aplicáveis a ele: alimento, saúde, moradia, vestimenta, lazer etc)... Estes são, em geral, os elementos aos quais aspiram a classe trabalhadora e dos quais não desejam ser destituídos os mais abastados. A posse destes bens é o próprio valor atrbuído a uma pessoa. Na sociedade brasileira, é inegável a força do preconceito social, sendo este ainda mais intensamente observável que o preconceito racial. Isso é verificável mesmo na língua que falamos. Por exemplo, muitas pessoas não sabem que construções lingüísticas como "dereito", "frecha", "despois", "frito", "premeiramente", hoje consideradas incorretas, são encontradas na carta de Pero Vaz de Caminha, de 1500. Com a língua, o que acontece é que existe uma variante que é mais prestigiada e, coincidentemente, ela é quase sempre a variante da classe social mais alta. Quem tem mais bens, mais status, diacronicamente tem tido também a preponderância lingüística. Logo, nada mais comum que associar a felicidade à posse de bens, que é o mesmo que associá-la à segurança, e também o mesmo que associar o valor de alguém à segurança que ela possa proporcionar para si e eventualmente para quem interessar possa. Daí o medo do que há de vir, de perder essa segurança.
Isso acontece também no plano pessoal, tão comumente traduzido na palavra "insegurança" que, assim tão repetida, parece esvaziar-se um pouco de toda a carga de sentido que efetivamente encerra em si mesma. Ser inseguro é ser também e em significativa medida, produto de uma soma de fatores externos (embora eu particularmente acredite na propensão genética de alguns seres humanos quanto ao desenvolvimento de certas patologias psicológicas). É ter medo, e, tanto filósofos da Antiguidade, como aristóteles, quanto psicólogos PhDs da contemporaneidade concordam que o sentimento de medo é absolutamente normal: mais que isso, é um comportamento biológico de auto-preservação (segurança). Essa busca muitas vezes inconsciente e desesperada por segurança de fato é determinada por fatores biológicos e culturais que são sinalizados clara ou subliminarmente para nós todo o tempo.




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