Pequena Teoria da abertura textual (ou “Impróprio para gente com estômago forte” ou “Implicância com gente boa” ou “Sublimação não é pecado, mas, se fosse, era mentira” ou “Quem não leu não perdeu nada”)
“Todo texto é um texto aberto”.
É?
No meu instintivo conhecimento literário, ouvindo a frase de um professor de literatura, percebo que talvez eu possa ter perdido alguma coisa do significado “nomenclatural” da frase, mas, de todo modo, nasce o “mas espere um momento...” (ai, como gosto de uma discussão inútil!).
Quanto a dizer que um texto escrito, de um modo geral, passa primeiro pelo momento de sua criação e depois pelo momento de sua leitura, e que, nestes dois momentos, o texto se relaciona com realidades, com influências diferentes ligadas ora a seu autor, ora a seu leitor; evidentemente o texto escrito é passível de ter uma “abertura” (“o poema péssimo/ revela/ ao ser lido/ que há no leitor/ um poeta adormecido”, Ferreira Gullar); quando “abertura” significa que eu posso inferir um significado do que estou lendo, que posso entender do que se trata um texto qualquer, ainda que eu não chegue nunca a entendê-lo com a complexidade do escritor. Mas existe um acordo, um consenso sobre ele entre seus diversos leitores. É claro que, principalmente com o texto literário, as várias interpretações possíveis podem ser tão abrangentes que ultrapassam limites jamais imaginados por seu autor (sim, o texto, parido, é terra-de-ninguém): “todos lemos a nós e ao mundo à nossa volta para vislumbrar o que somos e onde estamos. Lemos para compreender, ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, como respirar, é nossa função essencial. O que diferencia a literatura das demais manifestações artísticas é que a literatura nos permite, pela interação cm seus textos, tomar contato com um vasto conjunto de experiências acumuladas pelo ser humano... lidar com sentimentos e dúvidas, emoções e perplexidades, enfim, todas as particularidades características dos seres humanos...” (Maria Luiza Abaurre). Nada é tão óbvio quanto a existência da possibilidade de diálogo entre o texto e seu leitor, repercutindo em muitas possibilidades de interpretação.
No entanto, há um parâmetro, um paradigma. E há dois extremos (só existe “aberto” por oposição a “fechado”, certo?). Existe um tipo de texto que é hermético, fechadíssimo (e portanto, pobre): aquele do qual exclusivamente seu autor pode inferir qualquer coisa, e tudo o que se pode dizer nele, não está nele; é superinterpretação. Criativo? Sim (há gosto pra tudo). Texto aberto? Não: por favor, não arreganhemos tanto.
Pelo significado da palavra “fechado”, algo “obstruído”, é impossível classificar como “aberto” o que não está, de nenhum modo, acessível. Radicalismo? Não. Juro. E provo (?).
Existem textos que rompem com o paradigma desses opostos, porque o sentido está justamente nessa ruptura (Andy Warhol ganhou muita fama assim; e não só com o texto escrito); se você não entendeu o sentido de cada um dos setenta fragmentos de “Eles eram muitos cavalos” (Luiz Ruffato), você vai pelo menos perceber algo de original quanto a sua estrutura e é nessa percepção que se encontra a abertura: façamos um experimento. Mil pessoas, diferentes idades, graus de escolaridade etc. Dê a elas, individual e incomunicavelmente o livro e pergunte o que entenderam dele. Podem não usar as mesmas palavras, mas vão perceber intuitivamente algo parecido com “...o texto se revela por golfadas. Como no título, palavras cavalgam, galopam...” ou com “...não sei se li poesia, se prosa, se prosa poética... Deparei com todas, o tempo todo. Sempre, só a inventiva ousadia e a ruptura de linguagem...”. Percebe? Nada chama mais a atenção, nada é mais aberto, dialogável, no livro, do que a sua estrutura, seu todo. Perfeito: mais um sentido de “aberto”.
Mas não é possível “abrir” tanto o uso de uma mesma palavra e classificar com ela uma significativa quantidade de acontecimentos literários (ou será que isso é possível e criticar essa “abertura” toda é uma rabugice? Um puritanismo? Um preciosismo?).
Gullar: “... o poeta/ desafia o impossível/ e tenta no poema/ dizer o indizível:/ subverte a sintaxe/ implode a fala, ousa/ incutir na linguagem/ densidade de coisa/ sem permitir, porém,/ que perca a transparência/ já que a coisa é fechada/ à humana consciência...”. O poeta corrobora este argumento porque posso entender o que ele quer dizer. E, embora ele esteja falando muito globalmente e eu possa fazer muitas interpretações ou usar o fragmento para apoiar muitos outros argumentos de naturezas bastante diversificadas, o poema é claro, não “perde sua transparência”; é acessível às minhas experiências, a minha interpretação de mundo. Tanto que posso usá-lo como ferramenta. Concorda com o argumento de que um texto “transparente” (“aberto”), mesmo rompendo com o que é usual, deve ser um texto claro, porque só assim pode ser acessível a outros, já que o seu significado no momento da escrita, o seu sentido para o autor, está “fechado à consciência humana”, possivelmente mesmo à consciência do próprio autor (terá ele conseguido dizer seu indizível? Coisificar a fala?). O seu extremo oposto é um texto fechado. Todos os textos devem ser abertos? Não. Principalmente os literários. Os textos herméticos são inferiores? Não. Não se trata de dar status, mas apenas de classificar racional e logicamente. Ou então não classificar nada. Mas com certeza de não sair por aí dando a gente prolixa, motivos para reflexões muito provavelmente isentas de qualquer funcionalidade (“...ter apego ao mundo/ é coisa dos vivos/ para o morto não há/ (não houve)/ raios rios risos...”, Gullar; de novo).
Estarei perdendo algum entendimento filosófico-literário? Então interpreta isso aqui: “a essência do universo perante o conflito do ego na construção do movimento dialético da natureza idiossincrática do todo”.




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