Ad Anita


05/04/2007


Epitáfio


caetano fernandes lira costa. umas das últimas palavras que li sobre ele diziam: "não deixou filhos, não deixou bens, não deixou herdeiros, não deixou testamento". não é verdade. filhos? deixou-nos todos: tio david, tia edna, mamãe, tio levi, tio jonas, andréa, carla, cristiane, letícia, joão filipe, isabel e eu. a cada um dos irmãos, cada um dos sobrinhos, ele, que tinha sempre cimento pelo corpo todo e doces nos bolsos, deixou mais um pouquinho órfão. porque o caetano sempre foi nosso paizão, sempre foi louco por todos nós. sempre conheceu cada um de um jeito todo particular, e sempre fez de tudo para que nada nos faltasse. fosse comida à mesa, fosse alegria no fim de noite. ele, que sempre foi um filho apaixonado pela mãe, pegando não sei quantas vezes para ele a mesma xícara de café (essa xícara eu não gosto, meu filho; ai, mas está assim tão sem açúcar; ai, meu filho, agora esfriou...). ele, que foi sempre um rapaz temente a deus (não fique dizendo que deus não existe, rósââni, quem mais ia fazer tudo assim tão perfeito?). ele, que foi sempre nosso advogado quando nossos pais queriam nos castigar, quando alguém mexia conosco na rua, quando não queríamos ir para a escola. ele, que foi sempre um irmão verdadeiramente irmão para os seus irmãos; irmão para qualquer hora. ele, que foi péssimo pedreiro. ele, que sempre foi cantor de chuveiro. ele, que sempre foi tão zombeteiro e mesmo assim nunca brigou com ninguém. não posso recordar jamais de algum sobrinho respondendo mal ao caetano. não posso me lembrar jamais de tê-lo visto triste ou pessimista, nem mesmo quando a mãe adorada faleceu. caetano sempre foi a força de todo mundo. e fazia uma salsicha frita maravilhosa. e cantava músicas de que ninguém no rio havia ouvido falar. e contava causos do norte e nós ouvíamos bestas, bestas... bens? Eu jamais esquecerei a voz dele, a risada franca, as histórias engraçadas, de terror, as zombarias (existia uma menina em santa amélia que só comia arroz do chão... esse pintinho não vai ser seu, não vai ser seu...). herdeiros? como não? nós, que aprendemos com ele o bom-humor, a leveza, e a jogar damas com seriedade de profissional. nós, que aprendemos com ele a empreender, a nos virarmos sozinhos, a acreditar que podíamos qualquer coisa, mas que era tão bom viver até mesmo de vender cocadas (mas comíamos quase tudo). testamento? cada um já sabe o que dele lhe pertence: a quem as memórias do irmão que vendia balas, a quem a memória do tio que trazia doces, a quem a memória do filho que fazia todas as vontades, a quem a memória do maluco que gastava todo o pagamento em um único dia, mas apenas queria esse dia feliz... eu sei que ele foi feliz porque nunca o vi bravo, porque ele soube gastar o tempo e o dinheiro que teve, porque para ele o que mais importava éramos nós, porque ele comeu toda a carne vermelha que quis, porque ele superou todas as dificuldades que teve, porque ele namorou muito, amou muito e foi muito amado. quem não o conheceu, nem pode ter noção da jóia que deixou de admirar. eu, que não serei jamais parecida com a preciosidade do que ele foi, deixo aqui algumas fotos. e a minha tristeza e alegria mais profundas. 03/03/07



A música que ele cantava e fazia eu me acabar de tanto rir:

Mas ele gosta dela e não maltrata ela...
Não disfaz dela e trata muito bem...
Foi lá na capela e se casou com ela
E não repara nela os defeitos que tem..

O que mata ela é uma perna torta
E a outra morta de uma congestão
Tem um braço seco que furou num prego,
Tem um olho cego e só tem uma mão...

Só tem uma orelha mas não é defeito..
Já perdeu um peito numa operação..
Veio um vento forte e entortou-lhe a boca
Ela é fanhosa e rouca mas é um peixão...

Escrito por Rosane Fernandes às 14h05
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